Disputa ao governo de Minas depende da vitória do deputado Antônio Andrade na eleição interna do PMDB
O ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), trabalha para ser candidato pela terceira vez ao governo de Minas, mas faz questão de deixar claro que não está disposto a fazer qualquer negócio para viabilizar o próprio nome.
Costa condiciona a candidatura a uma aliança forte, preferencialmente com o PT, e à eleição do deputado federal Antônio Andrade para presidente do partido em Minas. Na entrevista exclusiva concedida ao CORREIO de Uberlândia em seu gabinete na Esplanada dos Ministérios, disse que não pretende “bater na trave” pela terceira vez e que pretende criar secretarias estratégicas por região, sendo o Triângulo Mineiro e, em especial, Uberlândia aqueles que terão atenção especial, caso seja eleito governador.
CORREIO DE UBERLÂNDIA - Há alguma possibilidade de o PMDB definir a candidatura para a sucessão ao governador Aécio Neves ainda este ano?
HÉLIO COSTA - Nós temos trabalhado sem sermos pressionados pelo tempo, procurando ouvir cada região de Minas Gerais. O PMDB está fazendo um projeto para Minas, ele não tem uma candidatura ao governo de Minas. A convenção é que indica o candidato. Estamos nos preparando para apresentar um projeto de governabilidade para Minas Gerais, é indiferente se vai ser apresentado em dezembro, janeiro. Tem de ser apresentado na convenção do partido, que será em meados do ano que vem. Esse tempo que temos até a convenção nos possibilita conversar com os partidos da base aliada e encontrar um caminho comum, uma aliança.
Qual o peso da futura candidatura do governador Aécio Neves sobre a decisão da candidatura do PMDB ao governo?
A única diferença relevante é se ele for candidato a presidente da República. Porque é muito difícil para qualquer postulante ao governo de Minas Gerais hoje, inclusive para o candidato do PMDB desconhecer a candidatura (a presidente) de um mineiro que fez um belíssimo trabalho como governador de Minas e que tem uma presença de apoio popular excepcional no estado. Se ele for candidato, todos os partidos vão ter de repensar suas estratégias. Agora, se ele não for candidato a presidente, ele será candidato a senador e estará no páreo como qualquer outro.
O sr. disse várias vezes que faz questão de ser candidato de uma coalizão e já disse também que a tendência natural seria uma coligação com PT, mesmo não descartando até mesmo a possibilidade de união com o PSDB. Essa visão continua?
Sim. Por uma razão: o PMDB não impõe condições para alianças. A única imposição é de que ninguém faça imposição para que você possa realmente trabalhar em beneficio de uma aliança. Se chego para propor uma aliança e digo que tenho de ser cabeça de chapa, isso não é uma aliança, é uma imposição. O PMDB não faz isso.
O sr. aceitaria, por este motivo, ser vice em alguma chapa?
Não estou discutindo em hipótese alguma ser vice. Minha posição é muito simples: ou sou candidato a governador ou sou candidato a senador. Na minha biografia, eu não preciso do vice, nem para governador, nem para presidente.
Como o sr. vê o posicionamento do PT, que diz que não abre de candidatura própria em Minas? Mais que isso, tem dois pré-candidatos ao governo, o ex-prefeito Fernando Pimentel e o ministro Patrus Ananias.
Cada partido tem de viver com a agonia do seu dia a dia. O PT, assim como o PMDB, tem divergências, discussões internas. Acho que está muito cedo para discutir alianças. Os partidos têm de vencer esta primeira fase eleitoral, que vai até dezembro. No começo do ano é que a gente realmente incorpora a ideia de uma eleição no ano de 2010. Estamos neste momento trabalhando em projetos. Só vamos pensar em campanhas, alianças, candidatos, a partir de janeiro.
O sr. não acha que este cenário, diferentemente de outras eleições, está atrasado, com muitas indefinições?
Não podemos tomar decisão nenhuma até agora. Preferencialmente nós, no PMDB, caminhamos para um acordo com o PT e com os partidos da base aliada. Mas a decisão do TSE é muito objetiva, ela permite que os partidos façam alianças independentes nos estados. A única coisa que está para ser decidida, em nível de Justiça, é se o partido pode fazer uma aliança com uma agremiação diferente e se ele fica ou não obrigado a apoiar o candidato a presidente do partido propriamente dito. Então o leque de alianças é muito amplo este ano. O que nos dá uma posição extremamente confortável em Minas. Estamos fazendo juras de amor ao PT há muito tempo. O PMDB disse: nós queremos vocês como nossos parceiros, não impomos condições, queremos discutir candidaturas lá na frente. Agora, se não encontramos resposta para esta nossa colocação, temos indicações muito boas do governador Aécio Neves, por exemplo, de que a gente não pode deixar de conversar que precisamos trocar confidências políticas, que os nossos partidos têm uma convivência amistosa, que não é impossível uma aliança e a lei me permite fazer isso.
Como está a negociação com o PT? O sr. tem se encontrado com as lideranças de Minas Gerais?
Tenho me encontrado excepcionalmente com o ministro Patrus Ananias. Meu amigo pessoal, com quem tenho uma relação fraterna. Encontro-me permanentemente com o ministro Luiz Dulci. Com a ministra Dilma, quase dia sim, dia não, conversamos. Minha relação com o PT é excepcional. O PMDB tem dado ao presidente da República um apoio valioso, sobretudo, firme e sincero.
Numa pesquisa que o CORREIO de Uberlândia publicou em julho, o sr. obteve 77% da intenção de votos válidos. Como o senhor analisa este resultado?
Isso mostra o carinho que o povo do Triângulo, em especial de Uberlândia, tem comigo e que é fruto da minha preocupação permanente com as coisas de Uberlândia e do Triângulo Mineiro.
O senador Wellington Salgado disse que, se o sr. for eleito governador, criará a Secretaria Estratégica para o Triângulo Mineiro e que ele pleitearia esta pasta. Isso é fato?
É. Pelo seguinte: entendo que a gente tem de trabalhar no governo de Minas Gerais em regiões do estado. Você não tem mais, pelo tamanho do estado com administração centralizada em BH, condição de administrar um estado do tamanho da França. Vejo que o Triângulo Mineiro, em especial, tem de ter um tratamento diferenciado no próximo governo. O povo sabe que, se eu for governador, o Triângulo vai receber o tratamento que merece há muitos anos. O Triângulo precisa ser visto por Minas Gerais como uma região-modelo. Tem de ser apresentada para o Brasil. É o que a gente gostaria de fazer no estado todo. Temos outras regiões do Estado que precisavam se mirar no Triângulo Mineiro.
O sr. disse que a eleição para o diretório do PMDB mineiro é uma questão de menor importância. Mas, como pré-candidato, admite que o nome a ser escolhido faz diferença. Por quê?
Primeiro porque eu já lamento que o partido tenha de gastar as suas energias para fazer uma eleição para escolher o presidente do partido, quando na realidade devíamos estar todos concentrados nas eleições do ano que vem. Por outro lado, apresentei a candidatura do Antônio Andrade porque nós precisamos ter um presidente de partido que tenha representatividade nacional, que seja reconhecido pela sua liderança política, que possa fazer uma negociação com o presidente do partido, com os ministros do PMDB, que tenha uma história dentro do PMDB. Isto que, para mim, é importante. Eu tenho absoluta confiança no deputado Antônio Andrade, não me sinto confortável com a candidatura do outro.
Por quê?
O deputado Antônio Andrade se comporta de uma forma correta, sempre muito bem equilibrada. Eu não gosto de exageros, de bravatas.
O sr. condiciona a sua candidatura à eleição do deputado Antônio Andrade?
Eu condiciono. Se ele não for eleito, não serei candidato, não tenha dúvida. Como tenho absoluta certeza que ele não perde a eleição, não tem problema.
O sr. acha que esta energia desperdiçada dentro do PMDB pode enfraquecer o partido nas negociações de alianças, por exemplo, com o PT?
Não. Da mesma foram que o PT tem dois candidatos. Quando terminar a eleição estará tudo resolvido. Nós também. Quando terminar a eleição, com a vitória do Antônio Andrade, estará tudo resolvido. Não vejo maiores dificuldades. É uma questão de caráter político.
O sr. só admite ser candidato a governador numa aliança. É porque de outra forma o sr. acha que seria uma eleição mais difícil, uma vez que já disputou duas vezes o cargo?
Já fui duas vezes e bati na trave. Perdi todas as vezes por 1%. Perder por 1% é o mesmo que perder por 20%. Perdi porque não tinha partido, não tinha organização política. Hoje não. Hoje tenho o mais poderoso partido político de Minas Gerais. Tenho amigos, correligionários e companheiros em todas as regiões do estado.
Sendo assim, o sr. não poderia sair candidato só com o PMDB, sem uma aliança?
Ninguém consegue. Minas Gerais é um estado muito grande, tem uma diversidade política extraordinária. Sozinho você não consegue absolutamente nada na política mineira. Até tínhamos o que mostrar, o que apresentar. Como ministro das Comunicações, vamos encontrar em Uberlândia, por exemplo, 39 pontos de internet banda larga que o ministério fez na cidade. Investimentos de R$ 5,4 milhões nos lares abrigados que levamos a fundo perdido para a cidade. Você vai ver que hoje temos a TV digital em Uberlândia, a única do interior de Minas e a única rádio digital autorizada de Minas Gerais. Estamos levando telecentros a todos os 853 municípios. É um trabalho que tem peso. Ainda assim acho que o PMDB sozinho teria mais dificuldade.
O sr. é uma figura importante no cenário eleitoral nacional. O seu nome sempre aparece como potencial candidato a vice-presidente. O sr. cogita esta possibilidade?
Sou amigo de dois grandes vices-presidentes da República, que depois se destacam de uma forma extraordinária, Itamar Franco, que depois foi presidente, meu amigo pessoal. E o vice-presidente José Alencar, que é unanimidade nacional, liderança querida, respeitada. Acho que minha carreira já me deu, já me contemplou com todas as honras que eu poderia imaginar. A confiança do presidente Lula e, sobretudo, os mineiros que me elegeram senador com 3,5 milhões de votos. Em particular agradeço ao povo de Uberlândia e do Triângulo Mineiro que sempre me destacaram de uma forma tão especial.
O sr. tem um perfil interessante, pensando na ministra Dilma como cabeça de chapa. É homem, mineiro e uma figura conhecida nacionalmente. Se fosse uma convocação do presidente Lula, o sr. pensaria seriamente em ser candidato a vice-presidente?
Acho que quem adoraria isso seria o PT de Minas Gerais. Eu não sei se os meus amigos do PMDB me deixariam analisar uma proposta desta natureza, mesmo partindo do presidente da República. Hoje sou uma liderança do PMDB e com meu partido tomo todas as decisões. Não tomo nenhuma decisão que não passe pelo meu partido.
O presidente Lula, acompanhado da ministra Dilma e de outros ministros, tem dado uma atenção especial ao estado de Minas Gerais neste mês. Isso faz parte da estratégia para definir a candidatura da ministra e de fortalecer as bases para a sucessão ao governo do estado?
O presidente tem ido regularmente a Minas Gerais. Ele tem uma programação nacional e Minas tem sido contemplada com as visitas quase que de três em três mês, neste últimos dois, três anos. O fato de cada vez mais termos a possibilidade de a ministra Dilma ser a candidata do governo e do presidente da República torna as suas viagens mais políticas e mais emocionantes. A gente percebe que há uma maior curiosidade das pessoas que participam dos eventos na medida em que você tem não só o presidente da República, como também um potencial candidato à presidência, como a ministra Dilma.
A oposição está reclamando e protocolou denúncia de propaganda fora de época em função das viagens do presidente com a ministra. Afirma que isso é uma pré-campanha. O sr. naturalmente discorda. Por quê?
Isso, em latim, chama-se juris esperniandis, o direito justo de espernear. Se isso puder ser comparado a uma campanha ou pré-campanha, então vamos ter de aplicar o mesmo parâmetro para o governador José Serra, em São Paulo. Levar isso a todos os estados da federação, a todos os candidatos. O presidente tem o direito de viajar e ver suas obras. O presidente não é candidato a nada e tem o direito, até o dia da desincompatibilização dos ministros, dia 2 de abril, de levar seus ministros.
O sr. vai se desincompatibilizar no último prazo?
A menos que o último dia seja dia 1º de abril, que não quero definitivamente. No dia 2 de abril, eu devo estar me desincompatibilizando.
Fonte: Correio de Uberlândia