É comprovada pela história e pela ciência, rica em fatos, relatos e documentos, a existência do Holocausto de Judeus na Europa, durante a Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945). Entretanto, atualmente, tem emergido, no cenário mundial, inúmeros discursos que afirmam ser a história do Holocausto uma ilusão e farça montada pelos Estados Unidos da Améria e pelo Estado de Israel. Dentre tais discursos e pseudo-teorias, encontram-se os do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e o do Bispo da Igreja Católica, Richard Williamson. A quem realmente interessa tais discursos negadores do Holocausto Judeu, quais interesses subsistem como background. A verdade talvez resida no fato de que a disputa político-ideológica-econômica, com um tempero histórico-religioso, entre Oriente-Ocidente tem promovido a troca de farpas entre Israel e EUA, de um lado, e Irã, Síria e todo o Islamismo radical, do outro. Porém, o mundo não quer reconhecer que as religiões judáica, católica e Islâmica possuem origens em comum, e todas, sem distinção, certamente, pregam a paz. O problema maior disto tudo, é a reafirmação de ideologias fundamentalistas, xenófobas, neonazistas e transloucadas. O mundo corre perigo, pois a crise econômico-financeira-ambiental intensificam o desequilíbrio e a anomia social, sendo esse quadro caótico global uma ameaça a paz mundial. Estamos assistindo à construção de um cenário propício para insurgência de líderes e nações com ímpeto de beligerância total. Mas a religião é o elemento basilar para o recrudescimento das tensões e conflitos, pois os homens e os grupos sociais buscam uma suposta paz espiritual e material manipulada por falsos líderes religiosos e governantes milagrosos. Como você vê o papel da religião, do Estado e Igreja diante desse complexo de relações conflituosas? Comente:
'Eu não viajarei para Auschwitz', diz bispo Richard Williamson
Peter Wensierski e Steffen Winter
A negação do Holocausto pelo bispo Richard Williamson causou sérios danos à Igreja Católica. Em uma troca de e-mails e fax com a "Spiegel", o bispo ultraconservador diz que está disposto a "rever as evidências históricas".
Spiegel: O Vaticano está exigindo que o senhor se retrate de sua negação do Holocausto e está ameaçando não autorizar que o senhor retome suas atividades como bispo. Como o senhor reagirá?
Williamson: Por toda a minha vida, eu sempre busquei a verdade. Este é o motivo para ter me convertido ao catolicismo e me tornado padre. E agora só posso dizer uma coisa, a verdade da qual estou convencido. Como percebo que há muitas pessoas honestas e inteligentes que pensam diferente, eu devo rever as evidências históricas de novo. Eu disse a mesma coisa na minha entrevista para a televisão sueca: o que está em questão são evidências históricas, não emoções. E se encontrar estas evidências, eu me corrigirei. Mas isso levará tempo.
Spiegel: O senhor poderia viajar para Auschwitz.
Williamson: Não, eu não viajarei para Auschwitz. Eu encomendei o livro de autoria de Jean-Claude Pressac. Ele se chama "Auschwitz: Technique and Operation of the Gas Chambers" (Auschwitz: técnica e operação das câmaras de gás). Uma cópia está sendo enviada para mim e eu a lerei e estudarei.
Spiegel: A Sociedade de São Pio 10 (SSPX) estabeleceu um ultimato para o final de fevereiro. O senhor não corre o risco de romper com o grupo?
Williamson: No Velho Testamento, o profeta Jonas diz aos marinheiros quando o navio deles está em apuros: "Vamos! Atirem-me ao mar e ele ficará calmo ao vosso redor, porque sei que foi por minha causa que vos veio esta grande tempestade". A Sociedade tem uma missão religiosa que está sofrendo por minha causa. Eu agora examinarei as evidências históricas. Se não considerá-las convincentes, eu farei tudo o que estiver ao meu poder para evitar causar mais mal à Igreja e à Sociedade.
Spiegel: O que a revogação da excomunhão pelo papa Bento 16 significa para o senhor?
Williamson: Nós apenas queremos ser católicos, nada mais. Nós não desenvolvemos nossos próprios ensinamentos, mas estamos apenas preservando as coisas que a Igreja sempre ensinou e praticou. E nos anos 60 e 70, quando tudo foi mudado em nome deste Concílio (nota: o Concílio Vaticano Segundo), repentinamente se tornou um escândalo. Como resultado, nós fomos jogados à margem da Igreja, e agora que as igrejas vazias e o envelhecimento do clero deixou claro que as mudanças foram um erro, nós estamos retornando ao centro. É assim que funciona para nós conservadores: é provado que estamos certos, desde que consigamos esperar o suficiente.
Spiegel: As pessoas no Vaticano alegavam que não conheciam o senhor. É verdade?
Williamson: A maioria dos contatos passa pelo bispo Fellay e pelo Conselho Geral, do qual não faço parte. Mas três de nós quatro bispos participaram de um jantar privado com o cardeal Castrillon Hoyos em 2000. Ele se tratava mais de conhecermos uns aos outros, mas nós certamente discutimos questões teológicas e um pouco de filosofia. O cardeal foi muito amistoso.
Spiegel: O Concílio Vaticano Segundo é considerado uma das grandes realizações da Igreja Católica. Por que vocês não o reconhecem plenamente?
Williamson: Não está claro o que devemos reconhecer. Um documento importante se chama "Gaudium et spes", ou Alegria e Esperança. Nele, os autores escrevem com entusiasmo sobre a capacidade do turismo de massa de unir as pessoas. Mas é difícil esperar que uma sociedade conservadora abrace pacotes turísticos. Ele discute temores e dificuldades. E então uma guerra nuclear entre superpotências é mencionada. Como pode ver, grande parte disso já está datado. Estes documentos do Conselho são sempre ambíguos. Como ninguém sabia exatamente o que significavam, todo mundo começou a fazer como bem entendia logo após o Conselho. O resultado disso foi este caos teológico que temos hoje. O que devemos reconhecer, a ambiguidade ou o caos?
Spiegel: O senhor então está ciente de que estão dividindo a Igreja com suas posições extremas?
Williamson: Apenas a violação dos dogmas, isto é, os princípios infalíveis, destrói a fé. O Conselho Vaticano Segundo declarou que não proclamaria novos dogmas. Hoje os bispos liberais atuam como se ele fosse uma espécie de superdogma que abrange tudo, e eles o utilizam como justificativa para uma ditadura do relativismo. Isso contradiz os textos do Conselho.
Spiegel: Sua posição em relação ao judaísmo é consistentemente antissemita.
Williamson: São Paulo colocou desta forma: os judeus são amados por causa dos pais, mas inimigos por causa do evangelho.
Spiegel: O senhor seriamente pretende usar a tradição católica e a Bíblia para justificar seu antissemitismo?
Williamson: Antissemitismo significa muitas coisas hoje, por exemplo, quando alguém critica as ações israelenses na Faixa de Gaza. A Igreja sempre entendeu a definição de antissemitismo como uma rejeição aos judeus por causa de suas raízes judaicas. Isto é condenado pela Igreja. Isto é autoevidente em uma religião cujos fundadores e todos os indivíduos importantes de seus primórdios eram judeus. Mas também está claro, por causa do grande número de judeus-cristãos no início do cristianismo, que todos os homens precisam de Cristo para sua salvação -todos os homens, incluindo os judeus.
Spiegel: O papa viajará para Israel em breve, onde ele planeja visitar o Memorial do Holocausto. O senhor também é contrário a isto?
Williamson: Fazer uma peregrinação à Terra Santa é uma grande alegria para os cristãos. Eu desejo ao Santo Padre tudo de bom em sua jornada. O que me incomoda a respeito do Yad Vashem é que o papa Pio 12 é atacado lá, apesar de ninguém ter salvo mais judeus durante o período nazista do que ele. Por exemplo, ele fez com que certificados de batismo fossem emitidos para os judeus perseguidos para protegê-los contra a prisão. Estes fatos foram distorcidos para significar exatamente o oposto. Fora isso, eu espero que o papa também dê atenção para as mulheres e crianças que foram feridos na Faixa de Gaza, e que fale em apoio à população cristã em Belém, que atualmente está confinada à cidade.
Spiegel: Suas declarações causaram muitos danos e ultraje no mundo judeu. Por que o senhor não pede desculpas?
Williamson: Quando percebo que cometi um erro, eu peço desculpas. Eu peço a todo ser humano que acredite em mim quando digo que não falo nenhuma inverdade deliberadamente. Eu estava convencido de que meus comentários eram precisos, com base na minha pesquisa nos anos 80. Agora devo rever tudo e olhar para as evidências.
Spiegel: O senhor ao menos reconhece os direitos humanos universais?
Williamson: Quando os direitos humanos foram declarados na França, centenas de milhares foram mortos por toda a França. Onde os direitos humanos são considerados uma ordem objetiva para ser implantada pelo Estado, há consistentemente políticas anticristãs. Quando se trata de preservar a liberdade de consciência do indivíduo contra o Estado democrático, então os direitos humanos exercem uma função importante. O indivíduo precisa desses direitos contra um país que se comporta como um Leviatã. Mas o conceito cristão de Estado é diferente, de forma que as teorias cristãs de direitos humanos enfatizam que a liberdade não é um fim em si mesmo. O sentido não é liberdade de algo, mas liberdade para algo. Para o bem.
Spiegel: Suas declarações e a suspensão de sua excomunhão provocaram protestos em todo o mundo. O senhor entende isso?
Williamson: Uma única entrevista na televisão sueca dominou o noticiário por semanas na Alemanha. Sim, me surpreendeu. Isso acontece com todas as violações da lei na Alemanha? Dificilmente. Não, eu sou apenas o instrumento aqui, de forma que uma ação possa ser realizada contra a SSPX e o papa. Aparentemente o catolicismo esquerdista da Alemanha ainda não perdoou Ratzinger por ter se tornado papa.
As cidades brasileiras, atualmente, vivem o clima de terror social, onde assaltos, homicídios, sequestros e agressões se infiltram nas relações sociais. Somado a esse clima de guerra disfarçada, temos a guerrilha oriunda do tráfico de drogas nas grandes cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Belém, Fortaleza, Manaus e outras. Dentro do processo de desarticulação social, no indivíduo, na família e em diversos grupos e instituições sociais, assistimos à fragilização das ações de Estado e à omissão diante de problemas associados à deficiência no saneamento básico, na assistência à saúde, na segurança pública e no respeito à vida humana e aos direitos humanos. O Estado brasileiro mostra uma progressiva crise institucional caracterizada pela inoperância em conter a onda de violência emergente da guerrilha do tráfico de drogas, onde confrontos entre forças de segurança, traficantes e a máquina corrupta dão suporte ao sistema do crime organizado. Agentes do poder, funcionários públicos e o banditismo têm andado de mãos dadas por meio do suborno, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e o outras atividades sujas dentro e fora do Estado, reforçando o sistema de descaso, o qual deixa a população honesta refém de grupos de terroristas urbanos. Qual a saída para dirimir ou resolver tais quadros caóticos vividos pelo povo brasileiro? Reforma do códgo penal? severidade e menos corporativismo nas instituições de Estado diante de funcionários corruptos? Campanhas na mídia relativas ao procedimento social e político do povo e das instituições? Reformulação do sistema educacional brasileiro? Qual solução? o povo agoniza diante do terror!
Atualmente, percebe-se e assisti-se no Brasil e no mundo um crescimento de denominações religiosas. Pululam por toda parte apelos de cura (curandeirismos), clamores por socorro e alívio sofrimentos associados a enfermidades físicas, mentais (emocionais) e financeiras. Como pano de fundo, testemunha-se a eloquência e retórica treinada de "líderes" religiosos (auto-intitulados pastores, bispos, apóstolos, missionários e outros). Todo esse sistema "religioso" está estruturado supostamente em torno das verdades e princípios (fundamentais) de Nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo, Deus Pai e Espírito Santo. Entretanto, igualmente observa-se, somente para os mais atentos, a concorrência entre tais denominações religiosas pela dispusta de membros debaixo de seus átrios, átrios esses nem sempre seguros do ponto de vista da engenharia. Na verdade, os fundamentos cristãos e a palavra de Deus é desprezada quando se verifica a artificialização das relações entre membros e a consequente transformação do homem em mercadoria, manipulada por promessas de prosperidade material, aumento da renda e descaso da moldura de caráter.
Cultos são transformados em espetáculos. Letras e rítimos, outrora de cantores seculares, são adaptados para louvores, numa justificativa de que os filhos de Deus devem ser resgatados nas diversas categorias culturais, sem que haja uma mudança interior verdadeira. Usa-se a passagem bíblica de que "Deus aceita o pecador do jeito que ele for", mas não se submete à verdade da necessidade da mudança. A prosperidade material é a bandeira dessas denominções (empresas) religiosas (da religião). Comente acerca dessa realidade!
Não é recente, nem tampouco novidade, a incerção do Brasil em relatórios da ONU - Organização das Nações Unidas - sobre Direitos Humanos, onde nosso país é reprovado pela atuação, muitas vezes desproporcional, de nossas forças de segurança civil e militar (polícias). Quais as origens e os processos que permeiam essa "desfuncionalidade"? Se observarmos a teoria do eminente sociólogo francês È. Durkheim, um dos maiores expoentes do positivismo, o qual propôs o estudo da sociedade dentro de uma visão organicista, onde o todo seria composto por partes funcionais, tanto polícia quanto o crime se confundem e se fundem na visão de patologias que devem ser tratadas para que o oletivo social sobreviva frente ao caos iminente. Qual a solução? Mitigação do corporativismo institucional? Melhores salários aos "funcionários públicos" das forças de segurança? Funcionários públicos (os maus funcionários - a parte podre) que não internalizam nem internalizarão a ética do funcionalismo, nem o respeito à pessoa humana. E as autoridades? O que devemos cobrar das autoridades? Em fim, como pensar, requerer e administrar o problema em questão?
Num país onde a popularidade de um presidente permanece em alta, Lula - 72%, e onde a população, durante a mesma pesquisa, não vê ou acredita estar a nação e o mundo em crise (crise econômico-financeira iniciada nos EUA e depois alastrada pelo planeta, onde políticos interesseiro, de caráter personalista, aprovam projetos e votam leis ilegítimos, faverecedores de si próprios, tal evento esportivo no Brasil poderá ser um excelente instrumento de fragilização e amortecimento das consciências já debilitadas de nosso povo. Quais serão as ações e objetivos buscados por nossa "classe" política local, regional e nacional? Dê sua opinião:
Água amazônica: ouro azul, fonte de vida, instrumento de poder
Luiz Henrique da S. Santana,
Sociólogo. Mestre em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas. Analista Ambiental. E-mail: lhs_santana@yahoo.com.br, lhenriquesantana@gmail.com.
Resumo
Discute-se a contradição entre o estado dos recursos hídricos na Amazônia, os interesses de sua mercantilização e a oposição discurso-prática do desenvolvimento sustentável. A água é defendida como direito humano e elemento geopolítico para estratégias de soberania local, regional e nacional. O princípio de precaução é visto como freio aos danos ambientais e resposta ao caos dos recursos hídricos.
Palavras-chave: Amazônia, desenvolvimento sustentável, precaução, soberania.
Abstract
They argue about the contradiction among the Amazon hydric resources, the interest on the resource commerce and its opositionsustainable speech – pratical, where the water is defended as a human right and a geopolitical element for local, region and natoinal sovereignty. The principle of precaution is seen as a break to the enviroment damage and an answer to choas about the hydric resources.
É pertinente argumentar sobre que relações permeiam o desenvolvimento sustentável como arcabouço ao gerenciamento da água e sua conformação geopolítica em torno de sua administração e acesso socioambiental na Amazônia brasileira, considerando-se o complexo jogo de poder entre sociedade-natureza local, regional e internacional. A construção do discurso e da prática sustentáveis, as divergências político-econômicas e as contradições estratégicas associadas ao paradigma do mercado “máximo” e do social “mínimo” configuram parte desse complexo jogo de poder.
Verifica-se a influência da ocupação humana no território e sobre a capacidade de suporte. Essa pressão humana é apresentada como uma das principais causas de modificação da natureza. Tais modificações se tornam mais fortes à medida que mostram a dicotomia entre ações e objetivos do discurso sustentável e os interesses político-econômicos nas ações estatais, empresariais e não-governamentais.
A dicotomia discurso-prática, mercado “máximo” e social “mínimo”, dadas às divergências na ideologia da eqüidade sustentável aliada ao desenvolvimento, expõe o elo entre os recursos hídricos amazônicos e a incapacidade dos poderes públicos locais em gerenciá-los adequadamente em moldes sustentáveis. A água amazônica como “ouro azul”, fonte de vida e instrumento de poder estrutura um complexo de elementos institucionais, político-econômicos e ambientais que tencionam o quadro caótico dos ecossistemas aquáticos amazônicos. Assim, a água como instrumento geopolítico estratégico local, regional, nacional e global, respalda a soberania amazônida e brasileira. Nisto, a ação do capital no processo de mercantilização do acesso e usufruto da água oposto à defesa do recurso como direito à vida chama atenção às forcas exógenas que avançam para o domínio dos recursos hídricos amazônicos pondo em risco tal soberania local e regional.
Torna-se necessário a adoção de medidas urgentes e responsáveis contra ações agressivas ao ambiente, na relação sociedade-natureza. Será, aqui, o momento para a aplicação do princípio de precaução sobre atividades produtivas. Sim, porém, aperfeiçoamentos devem incorrer sobre o instrumento jurídico para atenuar as supostas conseqüências do mau uso do princípio sobre os sistemas de produção e tecnologia.
A relação entre poder político, responsabilidade ambiental, modelo de desenvolvimento e problemas ecossistêmicos traduz, na Amazônia brasileira, a omissão do Estado perante a sociedade, gerando um quadro depreciativo dos recursos hídricos nas cidades e no campo.
Abrangência geral, os primeiros passos
O homem sempre necessitou vencer obstáculos em sua trajetória terrestre como construção de diques, represas, estradas e habitação. É oportuno reconhecer a capacidade de intervenção do ser humano nos espaços, transformando-os em territórios, demarcando-os, criando fronteiras, intensificando relações, crescimento demográfico e disputas pelo poder.
Na conformação do território, a espécie humana modificou os cenários naturais do planeta, erigindo estruturas para a manutenção dos sistemas de produção, escoamento, comercialização, moradia, defesa e exploração dos recursos advindos da mãe terra. O aumento populacional, a urgência de novos mecanismos energéticos (carvão vegetal, mineral, eletricidade, petróleo, gás natural, fissão nuclear) ao suporte dos sistemas produtivos, somados à ilusão de um mundo ilimitado na exploração dos recursos, evoluiu ao que hoje se denomina de Crise de Civilização ou Crise ambiental.
Na emergência da Crise ambiental, muitos debates têm corporificado a preocupação com o ambiente natural. No amadurecimento político-ideológico sobre a amplitude das questões ambientais, sua influência nos mecanismos de produção e de relações sociais, surge uma alternativa em meio ao caos, o desenvolvimento sustentável O debate em torno do desenvolvimento sustentável recebe minuciosa atenção nas definições objetivas e subjetivas que a noção ou conceito pode embutir pelos interesses oriundos de doutrinas econômicas, jurídicas, antropológicas e ambientalistas diversas.
Há a tentativa de consolidação do conceito de desenvolvimento sustententável a partir da fusão entre ambiente e desenvolvimento econômico. Porém, inexistem mecanismos operacionais eficientes para efetivação dessa junção como estratégia ao gerenciamento da Crise Ambiental.
As objetividades e subjetividades da noção ou conceito adquirem identidades nas relações intergovernamentais e fóruns de discussão institucionais pelo globo, como na Convenção sobre Mudança Climática, no Rio de Janeiro em 1992 e na elaboração do Tratado de Maastricht da União Européia. Haten (1990 apud GODARD, 1994, p. 110) afirma que o Relatório Brundtland (1987) foi fundamental na formulação de um conteúdo significativo dentro de questões que envolvem o meio ambiente, o desenvolvimento econômico, a exploração e degradação do ecossistema e seus recursos ambientais e naturais.
O Relatório Brundtland vem dar resposta à balbúrdia verificada em anos anteriores nos debates sobre o tema da relação entre meio ambiente e economia, além da inexistência de medidas práticas e eficientes para abordagem da Crise de Civilização.
A construção de um sistema operacional de articulação sustentável entre processos produtivos, exploração de recursos naturais, preservação do meio ambiente e manutenção da qualidade de vida em padrões elevados de bem-estar é em si mesma um complexo que envolve interesses político-econômicos. Essa noção/conceito de sustentabilidade evidencia em seus componentes gramaticais (o substantivo “desenvolvimento” e o adjetivo “sustentável”) a centralidade no crescimento econômico, assumida internacionalmente. O foco econômico está no objetivo de todas as nações. Mas, e a ingerência dos problemas ambientais, as conseqüências sobre a qualidade de vida, e onde se situam, nesse sistema articulado, as dimensões subjetivas e qualitativas?
Divergências político-econômicas na interface do desenvolvimento sustentável
Apesar das ambições econômicas estarem à frente dos laboratórios político-ideológicos na busca de uma solidificação do nível de consumo e do padrão de vida nos países desenvolvidos, o desenvolvimento sustentável propõe um caminho novo diante do impasse. Segundo Godard (1994, p. 122-127), a sustentabilidade serve aos propósitos de comunicação e intercâmbio entre várias correntes de pensamento e teorias científicas, veiculando-se reformas institucionais na tentativa de equacionar as relações Norte-Sul. Vários instrumentos são usados na viabilização de tais objetivos nos campos jurídicos, científicos, políticos e econômicos.
Entre discurso e prática, nas decisões e planos internacionais, a construção do consenso é diluída frente às interferências dos poderes econômicos e políticos. Dentre os fatores políticos, têm-se a desconfiança histórica das Organizações Não-governamentais Latino-americanas diante dos governos dos países ricos do Norte, além da discordância ideológica existente nos movimentos e setores do ambientalismo. Um dos conflitos é o que permeia o ambientalismo religioso com o dos cientistas. Todos esses embates dificultam a relação discurso-prática sustentável (VIOLA et al, 2001, p. 141-142).
Percebe-se que o discurso da sustentabilidade é um campo de poder envolvido num jogo de forças ideológicas a serviço, de um lado, do capitalismo e, de outro, de um conjunto de atores sócio-institucionais como organizações da sociedade civil e instituições internacionais de gerenciamento e financiamento (GODARD, 1994, p. 110-114). Os benefícios sociais tornam-se o lado mais fraco dentro de um universo onde equilíbrio entre economia e meio ambiente tradutor de igualdade de privilégios e consumo, a diminuição dos níveis de produção nos países do Norte rico e o aumento da qualidade de vida nos países do Sul e leste pobres pedem uma mudança radical no sistema hegemônico global (FEARNSIDE, 1997, p. 314-344; MARTINEZ-ALIER, 1997, p. 215-231).
Sendo assim, com base em Godard (1994), ao entendimento da noção/conceito de desenvolvimento sustentável, as diversas correntes de pensamento e as controvérsias em torno do uso do comportamento responsável (princípio de precaução) para impor mudanças institucionais e políticas, pode-se ter uma base de análise do sentido real ou utópico da relação sociedade-economia e meio ambiente dentro da sustentabilidade.
Dos degraus do amadurecimento à insustentabilidade da ação: mercado máximo, social mínimo
Do amadurecimento intelectual à utilização do discurso sustentável nas políticas públicas de planejamento e gestão socioambiental há um longo caminho a percorrer. As idéias da sustentabilidade estão, atualmente, se difundido por todo o planeta, onde o discurso central gira em torno da satisfação das necessidades das gerações atuais com a consideração das demandas das gerações futuras no tocante aos recursos naturais e ambientais (BRUNDTLAND, 1988 apud GODARD, 1994). Porém, das intenções às ações efetivas de políticas ambientais muitos dispositivos são sugeridos em meio às divergências e tensões político-econômicas.
As primeiras simulações de práxis nas questões de meio ambiente têm sua origem nas preocupações sobre os desastres ambientais, a saturação da capacidade de suporte, na pressão populacional e na sobre-exploração dos recursos naturais renováveis e não-renováveis. Tais quadros estimulam ações técnicas e de precaução visando estancar as ameaças. As grandes convenções internacionais, acordos nos fóruns e congressos, além da mídia deram respaldo à popularização do termo e discurso sustentável (LEFF, 2001, p. 16-23).
Apesar da atenção redobrada sobre os impactos no ecossistema global e seus recursos naturais e ambientais, tendo-se como ênfase os acordos no intuito de se dirimir o caos é importante deixar registrado que a aceitação de um arcabouço de eqüidade e respeito entre as necessidades da geração atual e das futuras implica um pensar e um agir críticos e comedidos sobre as trocas comerciais, o livre mercado e a concentração de riquezas no mundo.
A consolidação de uma sociedade sustentável enfrenta recusas por parte das nações ricas que não desejam ver seu padrão de consumo diminuído. Por sua vez, as nações pobres, sob o discurso da necessidade de melhoria da tecnologia e da economia, numa dívida social e histórica, igualmente recusam a adoção do arcabouço sustentável. (VIOLA et al, 2001, p. 150). Godard (1994) afirma que essas duas barreiras demonstram a dificuldade na gerência e no manejo equilibrado entre sistema econômico, político e ambiental, empurrando o social para plano secundário.
Em suma, as preocupações relativas aos problemas ambientais somadas à articulação política nos fóruns e debates, além do suposto altruísmo associado à manutenção das futuras gerações absorvem uma alta tensão oriunda das grandes corporações econômicas e do livre comércio. Essas forças e tensões das potestades financeiras infiltram-se no poder político – governos, organizações não-governamentais e instituições internacionais – restringindo suas ações em prol do meio ambiente e da qualidade de vida. O poder político dá sustentação às atividades e ideologias econômicas. O complexo de relações apresentado, aqui, por seu campo de tenção contraditório, interfere numa questão emergente e estratégica para o mundo e a Amazônia, a geopolítica da água como recurso hídrico e sua adequação num possível modelo sustentável.
Água amazônica: ouro azul, fonte de vida, instrumento de poder
Do exposto anteriormente verifica-se a supremacia do poder econômico sobre a ideologia e ações de política inseridas nas decisões e planos de atores e agentes públicos e privados relativos a questões ambientais. É pertinente o olhar sobre a relação entre discurso e prática no desenvolvimento sustentável e a adequação dos recursos hídricos amazônicos a esse paradigma emergente. Tal relação pode ser delimitada pelas ações entre Estado, sociedade civil organizada, organismos internacionais oficiais, corporações econômicas e comunidades locais.
O desenvolvimento sustentável como paradigma em formação sugere o respeito ao meio ambiente e uso correto e comedido de seus recursos naturais e ambientaisacompanhado pela garantia de acesso a esses bens por parte das futuras gerações. No entanto, quando o foco de análise está centrado na relação entre recursos hídricos amazônicos e sua importância estratégica global, o desenvolvimento sustentável se depara com um sistema complexo e paradoxo de interesses vários. Entra em cena a escassez do recurso, pressão populacional, qualidade de vida, demanda por energia, mercantilização do consumo e a contradição no que tange ao enorme volume hídrico amazônico com a deficiência no abastecimento.
É inegável a importância da água como elemento estratégico nas decisões políticas, econômicas e culturais nas escalas local, regional e global. Tais decisões influenciam na qualidade de vida, no progresso econômico, no equilíbrio ecossistêmico e na paz entre indivíduos e grupos humanos. O direito à água está inserido e, igualmente, operacionaliza todos os outros direitos humanos, civis, políticos, econômicos e culturais, pois sem o acesso ao recurso excluem-se os seres vivos (homens, animais e vegetais) da condição básica de manutenção da vida. Um exemplo do exposto é que “o abastecimento de água é um aspecto chave para a redução da pobreza sendo ainda fundamental para o desenvolvimento industrial e para a manutenção dos ecossistemas” (VILLAR; JUNIOR, 2006, p. 3). Se o direito à vida inclui saúde humana e ambiental, nisto, o saneamento básico é suporte imprescindível ao adequado acesso à água potável, o que a torna um direito humano.
A Amazônia brasileira expõe uma dicotomia entre abundância de recursos hídricos (águas superficiais e subterrâneas) para usos diversos (domésticos, recreacionais, industriais, comerciais, agricultura, transporte e equilíbrio ecossistêmico) e distribuição e acesso a esses recursos. A desigualdade é tanto regional quanto local, entre a região Amazônica e o restante do Brasil e entre a zona rural e as cidades da região. O Brasil possui enorme disponibilidade de água doce, em condições de fornecer a cada habitante/ano cerca de 34 milhões de litros, porém, o desperdício e má distribuição impedem uso igualitário. Dois terços da água brasileira estão na Região Norte, onde vivem 10% da população do país (IBGE, 2000).
Outro fator que impõe um desafio ao paradigma da sustentabilidade é a pressão populacional desigual em uma vasta região como a amazônica, oriunda da inexistência de políticas públicas participativas concernentes ao diálogo entre os diversos setores da sociedade e propulsoras de um modelo de desenvolvimento adequado às realidades locais. No caso do Amazonas, “com a criação da Zona Franca de Manaus, a cidade se transforma em grande pólo de atração, abrigando metade dos habitantes do estado” (IBGE, 2000). Este quadro é agravado pela precariedade dos sistemas de esgotos das cidades amazônicas. O problema se intensifica, tornando-se insustentável, na relação cidades-meio ambiente, pois na maioria das cidades da região os esgotos são expostos a céu aberto e apenas 4% das cidades possui rede adequada de escoamento sanitário. Manaus despeja grande parte de seus esgotos dentro do rio Negro (NORONHA, 2003, p. 121-122).
A relação entre água e sociedade dentro do contexto amazônico brasileiro denota, também, o descaso com áreas rurais e a importância geopolítica dessas localidades ao desenvolvimento das cidades e capitais. Nessa interação, meio ambiente, degradação, desenvolvimento e qualidade de vida tencionam e testam o discurso e as práticas sustentáveis. Cabe ressaltar que a região amazônica sul-americana, a qual inclui a brasileira, é responsável por 20% dos recursos hídricos mundiais, reafirmando sua potência estratégica na dinâmica socioambiental global (FREITAS, 2004, p. 35). Em se tratando de Amazônia, a água como recurso é cobiçada por Estados nacionais, corporações internacionais e grupos organizados diversos. Inúmeros são os interesses polarizadores em torno do uso, consumo e gerenciamento do precioso ouro azul. A soberania territorial regional e nacional passa a ter uma nova configuração.
Associada ao ouro azul do século XXI e por apresentar sinais de escassez e consumo crescente em regiões semi-áridas, a água poderá incitar conflitos políticos e bélicos pelo globo (BECKER, 2005, p. 8).Berta Becker afirma que um dos caminhos perseguidos nesta geoestratégia da água como recurso é sua possibilidade como fonte alternativa na geração de energia, numa perspectiva inovadora para o aproveitamento dos isótopos de hidrogênio, sendo pesquisada em paises como Alemanha e E.U.A (BECKER, 2005, p. 7). A água como necessidade social e suporte ecossistêmico na Amazônia brasileira oscila entre um direito humano à vida e a insumo ao sistema produtivo. Nisto, a visão social da água como um bem econômico inseri-la-á num fluxo monetário de oferta e demanda crescentes, passando sua gerência do setor público para a iniciativa privada. Essa contextualização eleva o nível de alerta ao tratamento do recuso hídrico e seu usufruto coletivo, pois a água amazônica tanto fornece valioso serviço ambiental como dá respaldo às atividades econômicas, e ambos contribuem ao bem-estar humano.
É relevante o tema sobre a água, enquanto recurso social, ambiental e natural. Isto se dá pelo fato de que a escassez causada pelo aquecimento global, poluição, desmatamento e pelo desperdício a torna um instrumento de pressão sobre a região amazônica, seu ecossistema e populações, onde forças exógenas e endógenas como madeireiras, organizações criminosas ligadas à biopirataria e bioterrorismo e organismos de pesquisa, ONGs e projetos de desenvolvimento propiciam a diminuição na participação do Estado no planejamento e controle do recurso. Na diminuição do Estado, o acesso à água será restrito aos que podem pagar num futuro próximo, pois a administração hídrica estará totalmente nas mãos da iniciativa privada. Em realidade, o que se deve evitar é a mercantilização ampla da água em detrimento dos direitos humanos e à cidadania dos indivíduos (VARGAS, 2006, p. 6).
Quando Norberto Bobbio afirma que “a plenitude do poder estatal se encontra em seu ocaso; trata-se de um fenômeno que não pode ser ignorado” (BOBBIO, et al, 2000, p.1187), ele previu o que, atualmente, dá-se em larga escala no sistema econômico neoliberal de uma Globalização5 totalizante. Estados vêem-se a mercê da diluição de seus poderes por meio de articulações e barganhas sobre e abaixo de suas esferas de atuação e controle jurídico-institucional. Tal rede articulatória é composta pela negociação direta, sem a participação estatal, entre ONGs, corporações econômicas, organismos de direitos humanos e de financiamento com atores locais (BRIGAGÃO; RODRIGUES, 1998, p. 25-27). Para a Amazônia essas redes devem ser monitoradas pela sociedade e pelos governos locais e federal. É óbvio que as redes geram benefícios em investimentos e proteção socioambiental, porém, numa dinâmica progressiva de mercantilização dos recursos da natureza, é imprescindível a responsabilidade social sobre a posse e uso da água como recurso vital à vida da região e do globo.
A identificação da amplitude dos processos de degradação na Amazônia, os quais possam atingir, também, a qualidade de vida socioambiental em outras regiões ou paises, fragiliza-lhe politicamente diante de interesses globais (FREITAS, 2000, p. 20). Não somente este problema suporia intervenção estrangeira direta, mas também, diante desta afirmação, os recursos hídricos representam um instrumento de poder local e regional para barrar uma possível mercantilização total das relações homem-natureza. A Ingerência exógena mercantilizadora neoliberal sobre o espaço-tempo amazônico seria nociva às populações locais e ao conhecimento tradicional, pois as dinâmicas do mercado livre se opõem aos processos naturais. Exemplo clássico do exposto é a constatação de que “uma das conseqüências da conversão maciça de florestas em pastagens seria uma diminuição da pluviosidade na Amazônia e nas regiões vizinhas” (FEARNSIDE, 1997, p. 328). A água amazônica por ter importante papel na manutenção de serviço ambiental relativo ao ciclo hidrológico é um componente fundamental para o desenvolvimento sustentável na região. O desafio é como converter serviços ambientais em fluxo de renda e este em desenvolvimento sustentável amazônico? (FEARNSIDE, 1997, p. 342).
Se for desafio a conversão dos serviços ambientais em sistema de renda sustentável, a mudança do atual modelo de desenvolvimento capitalista predatório é barreira ideológica e material quase intransponível. Na Amazônia, identifica-se a ideológica de que os países ricos, ao esgotarem seus recursos, agora desejam impedir que os recursos das nações pobres sejam explorados para fomentar um suposto desenvolvimento não atingido. Tal fato representa uma ameaça ao gerenciamento sustentável dos recursos hídricos. O aproveitamento da água como recurso natural deve conciliar desenvolvimento com geração de energia, proteção ecossistêmica e qualidade de vida para as populações. Uma sugestão viável seria a construção de pequenas centrais hidrelétricas e o uso de “rodas d’água” para geração de energia limpa (FONSECA, 2000, p. 8).
Em verdade, a água como recurso hídrico na Amazônia, tanto nas cidades quanto nas áreas naturais de biodiversidade intocada, merece análise holística apreciadora de processos e atores diversos envolvidos: o gerenciamento irresponsável, degradação e escassez dos recursos fomentam riscos imprevisíveis à saúde do homem amazônico. Na relação cidade-campo, a água sofre conseqüências do lançamento de efluentes industriais e domésticos, os quais deságuam nos rios da região. A ganância material pelo lucro financeiro e político omite externalidades e impactos advindos de empreendimentos hidrelétricos de grande porte, garimpos, prospecção de combustíveis fosseis e madeireiras (ARAGON, 2005, p. 7), todo esse complexo incide diretamente no equilíbrio do ciclo hidrológico e no ecossistema amazônico.
Do equilíbrio ecossistêmico, advindo de uma responsabilidade ambiental competente sobre a administração dos recursos hídricos, depende a vida amazônica e a soberania nacional. Na globalização, onde o capital é a matriz organizacional das sociedades, mercantilizar recursos naturais, excluindo-se do processo grandes parcelas de população, a Amazônia e o Brasil não podem olvidar a importância geoestratégia dos recursos hídricos. O poder público e setores econômicos não podem assumir posturas personalistas e oligárquicas, pois a Amazônia está sendo observada pela comunidade internacional, à espera de um momento adequado para inserir mecanismos institucionais de mercantilização dos conhecimentos, biodiversidade, minérios e recursos hídricos sem acesso igualitário e participativo nas decisões por parte das populações locais.
Um modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia deve inserir a água como pilar socioeconômico e ambiental, e, para tal, torna-se necessária a adoção imediata de posturas ideológicas jurídicas de contenção das ações e empreendimentos ameaçadores ao quadro socioambiental da região. Uma sugestão seria a inclusão do princípiode precaução como norteador das políticas públicas ambientais para os recursos hídricos.
Princípio de precaução, legitimidade e antipatia social
O texto de GODARD (1994) nos fornece argumentações sobre a importância da sustentabilidade do desenvolvimento atrelada a um clássico instrumento de execução jurídica, o princípio de precaução. Tal princípio intervém na sociedade, estimulando comportamentos obedientes e, muitas vezes, reativos ao princípio.
O comportamento ambientalmente responsável, que reflete na possível relação de seu ato com problemas e conseqüências sobre o equilíbrio ecossistêmico, assume a identidade legal e jurídica característicos ao princípio de precaução. Ele atua sobre a potencialidade dos comportamentos agressivos, procurando estancá-los a priori, e, com isso, desviando as nefastas conseqüências ambientais.
Godard (1994) expõe o cuidado que se deve tomar com o uso indiscriminado do princípio de precaução. Sem arcabouço completo de informações sobre riscos potenciais e reais, as possíveis ligações com o comportamento ou agente agressor e a tomada de decisões unilaterais ou pontuais objetivando a interrupção dos processos julgados perigosos ao meio, o princípio revela-se uma ambigüidade não-sustentável. Assim, poderá trazer paralisia a setores e atividades tecnológicos essenciais tonificando custos e acirrando a antipatia social. Este ponto negativo é apreciável, pois a legitimidade coletiva é quem garantirá o sucesso ou fracasso das políticas ambientais perseguidoras da sustentabilidade.
A legitimidade só poderá ser construída frente à opinião pública quando da elaboração de estratégias de convencimento e fomento na participação dos atores locais, regionais e nacionais e do fluxo de relações internacionais nos processos decisórios de gestão dos recursos.
Há necessidade de sistemas de valores e arcabouços institucionais na defesa do “comportamento ambientalmente sensível”. Isso é revelado pelo fato dos custos ambientais e suas conseqüências socioeconômicas serem mais impactantes do que a interrupção de atividades tecnológicas duvidosas.
O comportamento responsável contra danos ambientais sobre o ecossistema, e a sociedade pode ser incutido, com a legitimidade do princípio de precaução, pela criação de um mecanismo comunicativo para base de sustentação do planejamento e execução da sustentabilidade no bojo das instituições e grupos sociais. Ou seja, os problemas e soluções são administrados pelos meios de comunicação – educação formal, mídia em geral -, os quais insiram valores ambientais responsáveis nas instituições e através delas. As instituições desenvolverão atividades visando à realimentação do sistema sustentável (SHENG, 1997, p. 168-170). Na relação sociedade, cultura e natureza amazônicas, o princípio de precaução é adequado para a manutenção do equilíbrio socioambiental, porque entre o discurso e a pratica da sustentabilidade, entre posições ideológicas diversas e a influencia do mercado, a incerteza das atividades humanas sobre o território clama pela interrupção imediata das ameaças aos recursos hídricos e à soberania regional e nacional.
Considerações finais
Refletir sobre discursos e práticas sustentáveis é analisar história, poder e política. Como em todo novo paradigma, o desenvolvimento sustentável passa por transições onde co-existem o antigo e o novo, o tradicional e o moderno, mas, principalmente, a dicotomia entre interesses econômicos e ecológicos na dinâmica das relações entre sociedade e natureza. Nisto, as civilizações mantiveram, em graus diversos de intensidade, uma interação responsável com o meio ambiente e seus componentes naturais, pois compreenderam em maior ou menor escala a importância da natureza para suas economias e sobrevivência. No entanto, seus modelos de desenvolvimento e suas atividades produtivas determinavam tal responsabilidade ou omissão sobre os sistemas naturais. Os antigos impérios fluviais são exemplos de sociedades com alto grau de responsabilidade nas relações entre atividade humana e qualidade do meio ambiente. O Egito antigo e os impérios fluviais da Mesopotâmia dependiam da observação acurada dos ciclos de cheia e seca nos rios Nilo, Tigre e Eufrates para sobrevivência e manutenção de suas economias. Neste processo, as instituições governamentais tinham forte engajamento nas ações e providências sobre os cuidados com o ecossistema (BOBBIO et al., 2000, p. 976).
As sociedades ocidentais baseadas no modelo capitalista de desenvolvimento, em processo crescente de mercantilização da natureza, parecem diluir suas estratégias frente à depredação dos recursos naturais, em especial à água, diluição esta oriunda da dicotomia entre política e ecologia dissimulada pelos poderes econômicos. Com a consolidação da Revolução Industrial, a produtividade do trabalho humano e do capital assumiu grande importância, porém, essa ideologia apenas vê a natureza como parte dos lucros e rendimentos (BOBBIO et al., 2000, p. 976). O desprezo pela natureza ainda ocorre nas cidades amazônicas quando da emissão de efluentes industriais nos córregos e rios, onde o modelo industrial vigente, a forma de ocupação, o uso das periferias, o aumento populacional vertiginoso e a desigualdade nos benefícios e custos socioambientais denunciam o distanciamento na relação poder político-economia de um lado e ecossistemas, qualidade de vida e populações, de outro.
O estado dos recursos hídricos nas capitais, sua má administração, denunciada pela abundancia em oposição à distribuição e acesso desiguais, a depredação e contaminação dos ecossistemas aquáticos nas grandes bacias fluviais reforçam a tese de que o ouro azul de amanha pode se esgotar no presente.
Notas
1 O espaço é anterior ao território. O espaço é a matriz onde o território será produzido como resultado da ação de indivíduos, grupos e do próprio Estado com estratégias, planejamentos e intenções, sejam elas pragmáticas e/ou ideológicas, concreta ou abstratamente (RAFFESTIN, 1993,p. 143-152).
2 O desenvolvimento sustentável foi definido como ‘um processo que permite satisfazer as necessidades da população atual sem comprometer a capacidade de atender as gerações futuras (LEFF,2001, p. 16-19).
3 A pedido do Secretário Geral das Nações Unidas, em 1984, foi criada a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento para avaliar os avanços dos processos de degradação ambiental e a eficácia das políticas públicas ambientais para enfrentá-los (LEFF,2001, p. 16-19).
4 A capacidade de suporte(K) á a relação entre o tamanho da população e a quantidade de recursos usados agora, sem seu esgotamento futuro (BEGOSSI, 1997, p. 61).
O meio ambiente global dá sinais da degeneração social e econômica desse modelo espúrio de crescimento das nações. Modelo este que insiste na confusão entre os conceitos "desenvolvimento" e "crescimento", onde a denúncia de tal contradição é verificada pela ampla oposição entre ricos e pobres, hemisfério norte e sul, possuidores de ricas residências e aqueles moradores de palafitas em locais abandonados pelo poder público. Nisto, situações atípicas, associadas às catástrofes ambientais, têm mostrado que a natureza força a igualdade entre ricos e pobres, entre locais com alguma infra-estrutura e os desprovidos de tudo. Refiro-me a Santa Catarina e sua recente catástrofe ambiental.
Reflitamos: tanto locais ricos e abastados quanto pobres e despossuidos sofreram as terríveis perdas humanas e materiais ocasionadas pelo requerimento da natureza ofendida por parte do homem e sua sociedade incautos. No reino da inconseqüência reina a inexistência do princípio de precaução.
Responda, dê sua opinião: a natureza construirá uma igualdade global diante de tais catástrofes? Igualdade essa configurada em torno das catástrofes das inundações, deslizamentos, terremotos, doenças e destruição de moradias, abatendo-se sobre todos sem distinção de cor, condição socioeconômica, geográfica ou política? A economia dependente da natureza e de seus recursos naturais e ambientais tem dado sinais de colapso progressivo. Esta constatação também patrocinará uma igualdade compulsória entre os grupos sociais espalhados pelo globo terrestre? Dê suas opiniões, são muito importantes para o enriquecimento do debate político e intelectual em torno de um tema como este, variável tão interferente em nossas vidas!
A sociedade atingiu um patamar de conexão extraordinário, onde homens, grupos sociais, objetos ideológicos, instrumentos tecnológicos, produção e consumo em geral fluem livremente pelo planeta. Nesta frenética relação entre indivíduos pensantes, objetos materiais e ideológicos, emerge uma desconsideração quase total de valores e princípios morais, éticos, sociais e ambientais, evoluindo-se, perigosamente, a níveis de desagregação coletiva e ecossistêmica nunca vistos na história da humanidade. As bases materiais de tempo e espaço estão em processo de dominação e manipulação intensa viabilizados por uma razão instrumental ameaçadora das relações e da vida planetária. Este veículo de comunicação propõe a participação de todos aqueles que pensam e admitem a responsabilidade comum diante deste cenário catastrófico. Contribua com seus ideais e propostas de soluções aos problemas da violência urbana familiar, ecossistêmica, de mercado (crise financeira e concentração de renda) e, principalmente nas bases morais da sociedade global. Comente acerca dessa realidade!
Conflitos armados pelo globo e crise econômica são exemplos do egoísmo humano. Enquanto a África passa fome e sofre pelo descaso das grandes potências, países ricos como os E.U.A, os da U.E, Oceania, Japão e China enfrentam a triste realidade do desemprego e do fechamento de unidades produtivas. A sociedade reclama por um super-homem... No entanto, temos que tomar cuidado e estarmos alertas para soluções supostamente salvadoras e revolucionárias. Um exemplo de clamor é a eleição do atual presidente dos Estados Unidos da América.
Momentos de crise econômico-financeira, depreciação social e política contribuíram ao longo da história para o surgimento de “salvadores da pátria” e “super-homens”, os quais ofereceram planos e projetos de Estado e governo, camuflados por soluções atraentes de cunho nacionalista, porém, cobrando em troca tanto o cerceamento de liberdades, perseguições político-ideológicas quanto o alto preço da vida humana...
Dê sua opinião quanto ao contexto contemporâneo, suas características de tensão e a possibilidade de emergência de um novo “messias” político.
Observação: não me refiro especificamente ao Presidente Barack Obama, mas aos fatos históricos, suas relações com os momentos de crise e as decisões tomadas.
Atualmente, a mídia, e os enlatados da "Califórnia" têm expandido seu poder de persuasão e de manipulação de mentes, opiniões e personalidades sedentos de soluções e alternativas frente ao caos global, institucional e individual da realidade humana. Qual será o desenrolar da tempestade que se aproxima?