7.2.2010 - Psicotomia: contos
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| O autor Cristiano J&ua.te;nior Balla expõe seus trabalhos liter&aa.te;rios nesta p&aa.te;gina, a fim de divulgar suas obras; estão entre elas poesia, narrativas, como contos infantis e short-stories. Trabalhos esmerados que unem ilustrações ao texto escrito, dando-lhes car&aa.te;ter de obra de arte no sentido mais puro da palavra. Seus livros estão dispon&ia.te;veis em e-book. Entre em contato para os adquirir.
Psicotomia:contos &ea.te; uma coletânea de contos contemporâneos, consta de 12 contos e est&aa.te; dispon&ia.te;vel aos leitores no e-mail do autor: cristianojballa@yahoo.com.br
O autor, ap&oa.te;s perdas inexpugn&aa.te;veis na d&ea.te;cada de 90, foi v&ia.te;tima num acidente de autom&oa.te;vel em 1994, sofrendo traumatismo craniano e graves ferimentos no braço e mão direitos, desde então vem lutando com as armas que a medicina moderna oferece para tratamento de sequelas neuropsiqui&aa.te;tricas, com relativo sucesso; Este livro Psicotomia: contos narra short-stories .jos personagens estão mergulhados no universo da lou.ra. Ficção com p&ea.te;s na realidade; e o autor sabe onde pisa, p.eando por cen&aa.te;rios surreais e brutos, sem perder a sensibilidade, pois.
Martelo de Vidro
Noite longa e solit&aa.te;ria; nada se ouvia na es.ridão do interior da casa de Jac&oa.te;. A madrugada se anunciava comprida e friorenta. Ele costumava deitar-se tarde, apenas ap&oa.te;s tomar seus rem&ea.te;dios, e esse ritual j&aa.te; durava longos anos.
Jac&oa.te; não se importava mais em ser chamado de louco pela vizinhança; aprendera que h&aa.te; loucos maus e loucos doentes; loucos conver.res e loucos quietos; ele era um tipo de louco quieto com suas vozes e visões e os m&ea.te;dicos o tratavam dando-lhe rem&ea.te;dios e ele acostumara-se em tom&aa.te;-los, uma vez que, como dizia, “afastavam os esp&ia.te;ritos ruins da sua vida”, os medicamentos eram-lhe como um exorcismo bioqu&ia.te;mico, e, como tal, bastava-lhe tomar algumas p&ia.te;lulas antes de dormir e j&aa.te; estava rezado seu credo-em-cruz farmacol&oa.te;gico. Podia dormir em paz e, às vezes, at&ea.te; sonhar com mulher boa e nua, como ele mais gostava.
Tudo estava como sempre naquela noite, apenas algo como que um aviso inquietava Jac&oa.te;; ele tentou dormir, rolou de um lado para outro da cama, levantou-se, foi tomar &aa.te;gua e deixou um abajur aceso no quarto e tornou a deitar-se, mas sabia que algo iria acontecer naquela madrugada. Nada que fosse ruim, apenas um aviso...
Jac&oa.te;, j&aa.te; disse, era um desses loucos quietos e adoentados, e seus problemas se agravaram depois que ele tentou usar os avisos para tentar tirar proveito para si pr&oa.te;prio, tentar enriquecer; coitado, acabou enlouquecendo e internaram-no num hosp&ia.te;cio. Isso foi h&aa.te; mais de 20 anos e ap&oa.te;s o acontecido, acabou criando mais ju&ia.te;zo a respeito de seus dons e os esp&ia.te;ritos j&aa.te; não o atormentavam mais. Se ouvia alguma voz, conversava com ela e não se deixava levar pelo que elas diziam; se via um vulto, não se desesperava mais, rezava e se benzia e tomava seus rem&ea.te;dios corretamente, todos os dias desde então. Jac&oa.te; era apenas um homem com a alma abatida e agora estava mais gasto devido ao uso constante de rem&ea.te;dios fortes.
Sim, tinha um dom especial, ouvia coisas, vozes, mas isso os m&ea.te;dicos chamam de lou.ra e o resto do povo acredita que são loucos mesmos. Bom, como j&aa.te; vi e ouvi muita coisa nessa vida, acho que h&aa.te; um limite muito tênue entre psicoses e manifestações espirituais e talvez nunca se chegue a uma conclusão correta de o que &ea.te; um e o que o outro; &ea.te; questão de experiência de vida, de saber viver.
O dom de Jac&oa.te; era agora u. para fazer o bem para as pessoas, mas ao modo dele. Não gostava de interferir na vida de ningu&ea.te;m, deixava que vivessem e resolvessem seus problemas do modo que lhes conviessem, tamb&ea.te;m, pudera: houve tempo em que falava demais e todos achavam que suas intervenções fossem coisa de louco mesmo, coisas sem-p&ea.te;-nem-cabeça. Dessa forma, Jac&oa.te; decidiu ficar quieto com suas vozes e visões, tomando os rem&ea.te;dios dos m&ea.te;dicos para não ir mais pro hosp&ia.te;cio. L&aa.te; s&oa.te; tinha louco e Jac&oa.te; não se achava um deles; sabia que tinha um dom de Deus, que homem nenhum compreendia.
Sabia de muitas coisas pr&aa.te;ticas tamb&ea.te;m, havia trabalhado como pedreiro toda sua vida e estava com quase 50 anos, mas agora estava aposentado como inv&aa.te;lido; os rem&ea.te;dios não o deixavam trabalhar direito e a fama de louco lhe tirava as oportunidades de emprego. A .istência social do manicômio ajudou-o a se aposentar. Jac&oa.te; achou bom ter um dinheirinho sem trabalhar no duro e, como era solteiro, o pouco lhe bastava e um bico aqui e outro acol&aa.te; mantinham-no de barriga cheia e casa arrumada.
Naquela noite uma vozinha fraca, um fio de conversa esquisita perturbava sua mente vinda por detr&aa.te;s de sua nuca e chegando at&ea.te; os seus ouvidos, invadindo-lhe o c&ea.te;rebro como uma martelada de vidro. Ele conhecia aquilo, era um aviso. Mas não quis saber de ouvir esp&ia.te;ritos coisa nenhuma, levantou-se mais uma vez enfezado e tomou mais uma p&ia.te;lula para dormir; era um sossega-leão que ele guardava pra noites desse tipo. Noites em que se quer apenas dormir sem conversa fiada, barulho dos quintos nem sonhos. Pensava ele: “Se ainda fosse voz de mulher boa e nua, mas voz do cão? Vai se dan&aa.te;, capeta!” Tomou a p&ia.te;lula como quem faz um ritual exorcista e aconchegou-se na cama; p.ados alguns minutos, dormiu pesadamente.
A madrugada alongou fria noite adentro e Jac&oa.te; começou a sentir a frialdade, mas dormia pe.. Parece-me que quando estamos dormindo e algum est&ia.te;mulo perturba o nosso corpo, essas sensações como o frio, o excesso de cobertas gerando calor sufocante, a bexiga cheia de urina, a boca seca, insetos e ru&ia.te;dos da noite, logo o c&ea.te;rebro as capta e as transforma em informações inconscientes e on&ia.te;ricas e acabamos sonhando com algo an&aa.te;logo, quando muito não acabamos por molhar a cama... Foi algo .im o que aconteceu com Jac&oa.te; naquela noite, o frio lhe atiçou a ponta do iceberg de seu inconsciente e ele sonhou com imagens frias e flashes do p.ado; era o aviso que a voz queria lhe dar na noite. De alguma forma, o aviso veio-lhe em forma de sonho, coisa de que ele não gostava; s&oa.te; gostava de sonhos com mulheres boas e nuas, .im seu dia posterior era como se j&aa.te; estivesse ganho de todo e dormia mais cedo pra ver se sonhava de novo o sonho libidinoso.
Naquela noite o sonho começou com uma mulher, morena, de olhos claros, sentada num sof&aa.te;, com batom de cor viva nos l&aa.te;bios; tinha tudo para ser um sonho bom para Jac&oa.te; e .im que ele começou a sonhar, seus olhos giraram levemente nas &oa.te;rbitas e ele sorriu sem abrir a boca, apenas contraindo o ris&oa.te;rio e o orbi.lar dos l&aa.te;bios, feito criança marota. Mas logo o sonho foi-se enchendo com um outro personagem sentado no sof&aa.te;, era uma criança de uns 5 anos, mirrada, doente, de olhar perdido e de boca entreaberta como a dos loucos que Jac&oa.te; vira no hosp&ia.te;cio. Era um garoto doente da cabeça, viu logo isso no sonho. A mulher, mãe do menino, olhou bem para Jac&oa.te; e disse com a mesma voz de aviso que o estava perturbando desde a v&ea.te;spera: “Eu não amo este menino.” Disse a frase com tal repugnância que parecia ser a mãe dum bastardo infeliz, ou de um aborto mal-sucedido. Essa era a aparência do menino, um aborto vivo; e o que era pior, renegado pela mãe desde o ventre e agora ela tinha que arrastar aquele fardo pelo mundo afora, mostrando a todos a sua infelicidade gen&ea.te;tica de mulher e mãe. O menino sofria por ser doente e sabia-se não amado pela mãe.
Jac&oa.te; acordou logo de sobressalto, .ustado com o aviso tido no sonho. A voz era conhecida, mas ele não se lembrava de quem era aquela voz; ainda bem, pois se soubesse quem era aquela mãe desgraçada que pusera um filho no mundo para mat&aa.te;-lo de desamor, ele lhe daria umas boas bordoadas. Jac&oa.te; foi acordando e sentindo-se ferido por aquela frase reveladora: “Eu não amo este menino.” Aos poucos o &oa.te;dio foi-se aclarando em seu peito e surgiu uma necessidade urgente de ajudar aquele garoto e aquela mãe que não amava o pr&oa.te;prio filho. Mas perguntava-se: “Por que ela não o ama se ela &ea.te; sua mãe?”. A cada minuto que se p.ava a cabeça de Jac&oa.te; ia-se enchendo de d&ua.te;vidas. Quem seria aquela mulher? Quem era o garoto adoentado feito louco? Por que ela não o amava? Seria mesmo sua mãe? Seria capaz uma mãe não amar seu filho?
No turbilhão mental de suas d&ua.te;vidas e com o susto do sonho, Jac&oa.te; não conseguiu mais dormir e pegou logo de sua B&ia.te;blia e foi ler os salmos que tanto o apaziguavam. Leu o salmo n&ua.te;mero 1 e nada Deus lhe disse; segurou a b&ia.te;blia com as duas mãos e forçou a vista na leitura, pois não sabia ler bem, mas seguiu adiante e leu o salmo n&ua.te;mero 2, leu-o com muito esforço e chegando perto do final do salmo leu a frase reveladora no vers&ia.te;.lo 12: “Beijai o filho, para que ele não se ire e pereçais no vosso caminho...”. Iluminou-se-lhe a mente e j&aa.te; sabia o que aquela criança adoentada do seu sonho precisava para ser .rada de seu problema e tamb&ea.te;m o que a mãe precisava fazer: precisava amar seu filho, beij&aa.te;-lo, abraç&aa.te;-lo, deixar que ele se sentisse amado. Nesses casos de doença da cabeça, depois de Deus e do saber dos m&ea.te;dicos, o que melhor .ra &ea.te; o amor, ainda mais o amor de mãe. Era isso, Jac&oa.te; sabia com certeza.
Quando deu por si, estava novamente com sono, dormindo sentado na beira da cama, abriu os olhos, pôs a b&ia.te;blia no criado mudo e voltou a dormir o sono de aposentado inv&aa.te;lido, at&ea.te; tarde da manhã. Não sonhou mais naquela noite. Descansou de suas vozes e perguntas e acordou como quem acaba de realizar uma tarefa e sente-se satisfeito.
O dia p.ou sem agonias e os outros dias seguiam-se amenos e calmos como eram os dias de Jac&oa.te;. Ele não mais ouvia os avisos de vozes que lhe vinham ao ouvido pela nuca, aqueles fiozinhos de conversas ruins. Apenas um aviso havia se in.tido na sua cabeça e não o abandonava, um aviso que as vozes haviam marcado como que ferro quente em couro de boi, era o que a mãe dissera do pr&oa.te;prio filho no sonho: “Eu não amo este menino.” O aviso estava agora dentro dele, reverberando em sua mente, mas Jac&oa.te; j&aa.te; sabia o que tinha que fazer, tinha que ajudar aquela mulher a aprender amar seu filho; era o &ua.te;nico jeito de o aviso em sua mente cessar de lhe repetir vez ap&oa.te;s vez o mesmo refrão melanc&oa.te;lico que, embora levemente, como um martelo de vidro, tamb&ea.te;m o deprimia.
E os dias seguiam com suas marteladas de vidro dentro da cabeça de Jac&oa.te;. Assim &ea.te; um martelo de vidro: não se pode malhar com muita força, senão ele despedaça-se; mas se se malha como quem afaga, ele vai cravando o prego dos avisos nos caminhos mentais at&ea.te; fixar-se bem e profundamente. Um martelo de vidro devia ser apenas uma es.ltura num museu dada&ia.te;sta.
Chegou o dia de Jac&oa.te; ir ao seu m&ea.te;dico pegar mais receitu&aa.te;rios para seus rem&ea.te;dios costumeiros. Em l&aa.te; chegando, um consult&oa.te;rio p&ua.te;blico, pois Jac&oa.te; era pedreiro pobre e aposentado por invalidez, com sal&aa.te;rio s&oa.te; pra sobreviver, sentiu uma martelada de vidro dentro do seu c&ea.te;rebro: mais um aviso. Perturbou-se, sabia que algo iria acontecer, mas não podia demonstrar aflição nenhuma, pois ali estavam o m&ea.te;dico e os enfermeiros que poderiam lev&aa.te;-lo de novo ao hosp&ia.te;cio; precisava fingir que era uma pessoa normal e saud&aa.te;vel. Assim Jac&oa.te; fez seu teatro de gente alegre, com sorriso no rosto e olhos compenetrados como um atleta ou gente do com&ea.te;rcio, desprendendo sobriedade por todo seu semblante. Jac&oa.te; parecia mesmo um homem saud&aa.te;vel que nunca tivera sido doente, mas &ea.te; que h&aa.te; marcas que não se apagam com o tempo, são como cicatrizes de uma ferida bem fechada, mas que a qualquer momento podem-se transformar em &ua.te;lcera aberta à luz e aos olhos de todos; &ea.te; a cicatriz fechada pelo medo. E de medo mata-se e morre-se, mas Jac&oa.te; era um bom figurante no teatro da vida e fazia bem seu papel, ainda ali naquele consult&oa.te;rio m&ea.te;dico do estado cheio de enfermeiros fortes como arm&aa.te;rios de madeira-de-lei.
Jac&oa.te; fez bem o seu teatro peri&oa.te;dico e recebeu suas receitas m&ea.te;dicas e dirigiu-se à farm&aa.te;cia do posto de sa&ua.te;de p&ua.te;blico para avi&aa.te;-las. A cada p.o que dava uma pequena martelada de vidro malhava em seu c&ea.te;rebro e ele julgava que desta vez não conseguiria sair-se bem dessa situação, estava a ponto de gritar alto, enlouquecer, urrar feito bicho ferido no meio das ruas que cruzava em direção ao posto de sa&ua.te;de. Mas Jac&oa.te; seguia no seu teatro de gente normal que não era e p.o a p.o chegou ao posto; l&aa.te;, entrou na fila à espera de ser atendido pelos farmacêuticos. J&aa.te; não corria risco de ser preso e levado ao hosp&ia.te;cio, mas seu maior medo era de que algu&ea.te;m lhe pudesse ler os pensamentos e enfim fic.e sabendo da confusão mental e dos tormentos por que estava p.ando naquele dia, das marteladas de vidro em seu c&ea.te;rebro de inv&aa.te;lido aposentado. Eram 3 da tarde e a fila seguia na frente da farm&aa.te;cia do posto. “Tomara que tenham os rem&ea.te;dios, senão terei que comprar fiado na Farm&aa.te;cia do Juca, meu .mpadi.”
Chegou sua vez de ser atendido, havia todos os rem&ea.te;dios da sua receita, exceto um, um rem&ea.te;dio que acab.e com suas marteladas de vidro intermitentes em sua cabeça, mas este era um mal que s&oa.te; tinha um jeito: encontrar aquela mulher do sonho e ajudar aquela criança não amada por sua mãe.
O farmacêutico empacotou seus rem&ea.te;dios e chamou o pr&oa.te;ximo da fila; Jac&oa.te; deu meia volta e ia dirigindo-se para a sa&ia.te;da do posto quando topou com uma mulher puxando uma criança pela mãozinha, uma criança adoentada e mirrada com um bon&ea.te; cobrindo-lhe o semblante, como se a mãe quisesse escondê-la da vista dos outros por vergonha de ter um filho que tom.e rem&ea.te;dios de gente louca. A criança era-lhe uma l&aa.te;stima, um fardo para toda vida a ser arrastado penosamente, sem prazer em vê-lo ser um adulto que a ajud.e na velhice; muito pelo contr&aa.te;rio, ela teria que o ajudar em tudo, at&ea.te; o fim da vida. E o pior, no final da vida ela iria pro inferno por não ter amor por aquele filho. A mulher acabava-se de trabalhar dia e noite no serviço e nos afazeres redobrados da casa e o marido nem ligava mais para nenhum dos dois, saia todas as noites e acabara por levar vida alheia aos problemas da mulher e do filho; tamb&ea.te;m não os amava. Eram uma fam&ia.te;lia despedaçada, o filho doente e necessitado de .idados, a mãe .lpava o filho pelo desamor do marido e não amava o filho, apenas o suportava e o pai bebia e saia com outras mulheres, pois dizia que a sua mulher não era mulher de verdade, j&aa.te; que lhe dera um filho louco desde que nascera.
Jac&oa.te; ouviu a &ua.te;ltima martelada em seu c&ea.te;rebro ao olhar aquela mulher e sabia que tinha que agir r&aa.te;pido; não era sempre que se podia resolver um problema, nem encontrar pessoas numa cidade tão grande como aquela em que vivia. Estava todo alerta e tomou sua melhor compostura para abordar aquela mãe com seu filho. Chegou à mulher e perguntou-lhe o nome e quem era aquele belo garoto. Travou as primeiras impressões e fez-se simp&aa.te;tico, artista de teatro que havia se formado na vida, conseguiu a boa atenção da mulher carente de amigos e afeto.
Jac&oa.te; abraçou a criança, trazendo-o ao seu peito e o garoto sorriu e alegrou-se muito, pois quase nunca recebia demonstrações de afeto e Jac&oa.te; o beijou no rosto, como havia lido no salmo, “...beijai o filho...” . Pediu que a mãe do menino lesse aquele salmo e beij.e sempre o seu filho, todo dia, que .im ele iria sarar do problema, era uma questão de amor. Abraçou aquela mulher e disse-lhe que tudo seria resolvido, pois &ea.te; da natureza das mães amar seus filhos e ela não podia negar seu amor àquele filho. Falou com suas palavras simples de pedreiro aposentado por invalidez, mas falou de modo penetrante como se suas palavras fossem talhadeiras perfurando concreto duro e velho num peito sofrido e num coração empedrado que aquela mãe não resistiu e chorou abraçando aquele homem desconhecido e o garoto abraçou as pernas de ambos ali atados pelo destino. Jac&oa.te; despediu-se daquela mãe e de seu filho e o beijou mais uma vez com seus l&aa.te;bios de um rosa velho e ressequido, mas puros e sinceros como os l&aa.te;bios de um homem que se sabia louco pelos m&ea.te;dicos, mas que nem todos entendiam da mesma forma, agora muito menos aquela mulher e seu filho. Foi-se, sua missão estava completa, fez o que pudera; agora era com eles.
À medida que se afastava, sentia o martelo de vidro ser recolhido para alguma parte desconhecida de sua mente, como se l&aa.te; dentro houvesse toda uma caixa de ferramentas, uma para cada tipo de aviso ou visão, instrumentos delicados, precisos e com funções definidas e eficazes. Jac&oa.te; sabia-se um homem de ter visões e vozes de avisos, mas j&aa.te; não sabia se poderia ajudar mais pessoas como aquelas, estava tornando-se um velho e queria aposentar-se dessa profissão ingrata de ser louco de ter avisos, queria sossego no fim de sua vida, um dia, pensava ele, um anjo bom abriria sua cabeça e destruiria o martelo de vidro e todas as demais ferramentas da sua caixa de instrumentos surreais da sua mente e ele iria descansar da vida reclusa num mundo fragmentado.
(BALLA, Cristiano J&ua.te;nior. Psicotomia:contos. 2010)
O autor, depois de sofrer perdas afetivas inexpugn&aa.te;veis na d&ea.te;cada de 90, foi v&ia.te;tima de um acidente de autom&oa.te;vel e sofreu um traumtismo craniano e graves ferimentos na mão direita, o que lhe deixou sequelas neuropsiqui&aa.te;tricas das quais vem se tratando, com sucesso, desde então. Neste livro bruto e sens&ia.te;vel ao mesmo tempo, expõe faces da lou.ra no cotidiano e na vivência interior de seus personagens criados a partir de observações suas e dos que com ele conviveram neste trajeto de fuga das incab&ia.te;veis prisões da alma humana. | |
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Este blog se destina a hospedar e divulgar obras literárias de Cristiano Júnior Balla.
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