21.3.2010 - Unidade Linguística no Brasil
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UNIDADE LINGUÍSTICA NO BRASIL: REALIDADE OU MITIFICAÇÃO?
Apregoa-se, na contemporaneidade dos estudos relativos à Língua Portuguesa, que esta não possui uma unidade em toda a extensão geográfica do país do futebol. Ou seja, canta-se o Hino Nacional Brasileiro em todos os municípios da federação, mas não se sabe quem é o sujeito, nem onde se encontram o predicado e os demais complementos das frases parnasianas da letra deste símbolo pátrio.
A suposta inexistência da unidade lingüística nacional implica falta de comunicação e entendimento entre pessoas de diferentes regiões do país e de diferentes classes sociais, uma vez que o português correto, a norma-padrão da Língua Portuguesa, pertence à elite urbana e a uns poucos literatos que se auto-proclamam os donos do saber. Essa falta de unidade embasa-se em argumentos que lhe imputam mitificação devido à existência de diversas línguas indígenas, dos diferentes idiomas trazidos pelos imigrantes que aqui aportaram de todo o mundo, e das inúmeras variedades da língua portuguesa, cada uma dessas com características próprias e diferenças no status social do seu falante; trocando em miúdos: é como se cada pessoa falasse uma língua só dela.
No entanto, não é isso que se constata na realidade comunicativa do Brasil, que é o objetivo maior da nossa língua, pois em quase 100% dos lares existe em televisor e/ou um rádio AM – FM, no mínimo; em quase 100% dos lares existe uma Bíblia Sagrada, mormente a versão João Ferreira de Almeida; pela TV o povo assiste a jogos que se iniciam com o belo hino, a novelas, a noticiários, todos programas de alcance nacional, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, do Paraná ao Acre, etc. Quanto à pobre Bíblia, possui poucos leitores devido à cultura da maioria dos religiosos brasileiros, deveria ser mais lida, inclusive pelos profissionais da fé, pois constitui um dos pilares da Língua e da Literatura. Devido a esses elementos difusores da Língua Portuguesa, presentes na quase totalidade dos lares brasileiros, é que se argumenta existir, sim, uma unidade lingüística no Brasil. Por isso é possível a um capixaba entender um livro de Moacir Scliar, que é gaúcho; um processo jurídico escrito no norte paranaense, pé vermelho, ir à capital do leite quente para após ir a Porto Alegre e depois rumar a Brasília, aquele amálgama faraônico de concreto, raças e leis; é devido à unidade lingüística que os mais diversos livros do mundo todo podem ser traduzidos para o português e serem lidos em todas as regiões do Brasil. Enfim, jornalistas, repórteres, escritores, tradutores e evangelistas, e não apenas professores de Língua Portuguesa, trabalham com afinco no intuito de se estabelecer uma unidade linguística no Brasil. Este é o fato.
É sabido que se lê pouco no país, fato alarmante, contabilizado por aproximadamente 15% de analfabetos, cujo montante aumenta assustadoramente quando somado às fileiras dos analfabetos funcionais. Entretanto, os analfabetos assistem a programas de TV e ouvem discursos em sua língua pátria e os entendem perfeitamente. Como isso é possível? Devido à gramática intrínseca que toda linguagem humana possui. Se essas pessoas não possuem noções de gramática normativa, aquela coisa chata de análise sintática, etc., sabem as regras gramaticais intrínsecas como que por intuição, internalizadas em suas mentes devido ao ouvir e falar, atos práticos de comunicação cotidiana. Não se pode, no entanto, transformar a Linguística em casa de permissividade, dizendo que todo erro gramatical é por ela justificado como linguisticamente correto, pois os limites e normas gramaticais devem ser obedecidos, respeitados, ensinados, estudados e, por que não reformados de acordo com as próprias pesquisas lingüísticas longamente postergadas? Caso contrário estabelecer-se-ia o caos, a desordem, uma verdadeira Torre de Babel dos tempos modernos em que, cada qual, falando uma língua só sua, não se comunicaria com o outro, quer falando, escrevendo ou ouvindo.
A solução de problemas educacionais, não apenas de linguagem, passa pela instalação da educação integral, do reconhecimento do professor como profissional digno de melhores salários, do aluno como futuro renovador da nação, entre outros, uma vez que a educação, no Brasil, não é centrada em seus recursos humanos e sim no tijolo do pedreiro que constrói os prédios de universidades, mas não tem a oportunidade de adquirir os conhecimentos ali ensinados, abrigando-se das chuvas da vida.
Cristiano Júnior Balla – é escritor, professor, especialista em Literatura e Linguagem.
Bandeirantes, Paraná. |
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7.2.2010 - Psicotomia: contos
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O autor Cristiano Júnior Balla expõe seus trabalhos literários nesta página, a fim de divulgar suas obras; estão entre elas poesia, narrativas, como contos infantis e short-stories. Trabalhos esmerados que unem ilustrações ao texto escrito, dando-lhes caráter de obra de arte no sentido mais puro da palavra. Seus livros estão disponíveis em e-book. Entre em contato para os adquirir.
Psicotomia:contos é uma coletânea de contos contemporâneos, consta de 12 contos e está disponível aos leitores no e-mail do autor: cristianojballa@yahoo.com.br
O autor, após perdas inexpugnáveis na década de 90, foi vítima num acidente de automóvel em 1994, sofrendo traumatismo craniano e graves ferimentos no braço e mão direitos, desde então vem lutando com as armas que a medicina moderna oferece para tratamento de sequelas neuropsiquiátricas, com relativo sucesso; Este livro Psicotomia: contos narra short-stories cujos personagens estão mergulhados no universo da loucura. Ficção com pés na realidade; e o autor sabe onde pisa, passeando por cenários surreais e brutos, sem perder a sensibilidade, pois.

Martelo de Vidro
Noite longa e solitária; nada se ouvia na escuridão do interior da casa de Jacó. A madrugada se anunciava comprida e friorenta. Ele costumava deitar-se tarde, apenas após tomar seus remédios, e esse ritual já durava longos anos.
Jacó não se importava mais em ser chamado de louco pela vizinhança; aprendera que há loucos maus e loucos doentes; loucos conversadores e loucos quietos; ele era um tipo de louco quieto com suas vozes e visões e os médicos o tratavam dando-lhe remédios e ele acostumara-se em tomá-los, uma vez que, como dizia, “afastavam os espíritos ruins da sua vida”, os medicamentos eram-lhe como um exorcismo bioquímico, e, como tal, bastava-lhe tomar algumas pílulas antes de dormir e já estava rezado seu credo-em-cruz farmacológico. Podia dormir em paz e, às vezes, até sonhar com mulher boa e nua, como ele mais gostava.
Tudo estava como sempre naquela noite, apenas algo como que um aviso inquietava Jacó; ele tentou dormir, rolou de um lado para outro da cama, levantou-se, foi tomar água e deixou um abajur aceso no quarto e tornou a deitar-se, mas sabia que algo iria acontecer naquela madrugada. Nada que fosse ruim, apenas um aviso...
Jacó, já disse, era um desses loucos quietos e adoentados, e seus problemas se agravaram depois que ele tentou usar os avisos para tentar tirar proveito para si próprio, tentar enriquecer; coitado, acabou enlouquecendo e internaram-no num hospício. Isso foi há mais de 20 anos e após o acontecido, acabou criando mais juízo a respeito de seus dons e os espíritos já não o atormentavam mais. Se ouvia alguma voz, conversava com ela e não se deixava levar pelo que elas diziam; se via um vulto, não se desesperava mais, rezava e se benzia e tomava seus remédios corretamente, todos os dias desde então. Jacó era apenas um homem com a alma abatida e agora estava mais gasto devido ao uso constante de remédios fortes.
Sim, tinha um dom especial, ouvia coisas, vozes, mas isso os médicos chamam de loucura e o resto do povo acredita que são loucos mesmos. Bom, como já vi e ouvi muita coisa nessa vida, acho que há um limite muito tênue entre psicoses e manifestações espirituais e talvez nunca se chegue a uma conclusão correta de o que é um e o que o outro; é questão de experiência de vida, de saber viver.
O dom de Jacó era agora usado para fazer o bem para as pessoas, mas ao modo dele. Não gostava de interferir na vida de ninguém, deixava que vivessem e resolvessem seus problemas do modo que lhes conviessem, também, pudera: houve tempo em que falava demais e todos achavam que suas intervenções fossem coisa de louco mesmo, coisas sem-pé-nem-cabeça. Dessa forma, Jacó decidiu ficar quieto com suas vozes e visões, tomando os remédios dos médicos para não ir mais pro hospício. Lá só tinha louco e Jacó não se achava um deles; sabia que tinha um dom de Deus, que homem nenhum compreendia.
Sabia de muitas coisas práticas também, havia trabalhado como pedreiro toda sua vida e estava com quase 50 anos, mas agora estava aposentado como inválido; os remédios não o deixavam trabalhar direito e a fama de louco lhe tirava as oportunidades de emprego. A assistência social do manicômio ajudou-o a se aposentar. Jacó achou bom ter um dinheirinho sem trabalhar no duro e, como era solteiro, o pouco lhe bastava e um bico aqui e outro acolá mantinham-no de barriga cheia e casa arrumada.
Naquela noite uma vozinha fraca, um fio de conversa esquisita perturbava sua mente vinda por detrás de sua nuca e chegando até os seus ouvidos, invadindo-lhe o cérebro como uma martelada de vidro. Ele conhecia aquilo, era um aviso. Mas não quis saber de ouvir espíritos coisa nenhuma, levantou-se mais uma vez enfezado e tomou mais uma pílula para dormir; era um sossega-leão que ele guardava pra noites desse tipo. Noites em que se quer apenas dormir sem conversa fiada, barulho dos quintos nem sonhos. Pensava ele: “Se ainda fosse voz de mulher boa e nua, mas voz do cão? Vai se daná, capeta!” Tomou a pílula como quem faz um ritual exorcista e aconchegou-se na cama; passados alguns minutos, dormiu pesadamente.
A madrugada alongou fria noite adentro e Jacó começou a sentir a frialdade, mas dormia pesado. Parece-me que quando estamos dormindo e algum estímulo perturba o nosso corpo, essas sensações como o frio, o excesso de cobertas gerando calor sufocante, a bexiga cheia de urina, a boca seca, insetos e ruídos da noite, logo o cérebro as capta e as transforma em informações inconscientes e oníricas e acabamos sonhando com algo análogo, quando muito não acabamos por molhar a cama... Foi algo assim o que aconteceu com Jacó naquela noite, o frio lhe atiçou a ponta do iceberg de seu inconsciente e ele sonhou com imagens frias e flashes do passado; era o aviso que a voz queria lhe dar na noite. De alguma forma, o aviso veio-lhe em forma de sonho, coisa de que ele não gostava; só gostava de sonhos com mulheres boas e nuas, assim seu dia posterior era como se já estivesse ganho de todo e dormia mais cedo pra ver se sonhava de novo o sonho libidinoso.
Naquela noite o sonho começou com uma mulher, morena, de olhos claros, sentada num sofá, com batom de cor viva nos lábios; tinha tudo para ser um sonho bom para Jacó e assim que ele começou a sonhar, seus olhos giraram levemente nas órbitas e ele sorriu sem abrir a boca, apenas contraindo o risório e o orbicular dos lábios, feito criança marota. Mas logo o sonho foi-se enchendo com um outro personagem sentado no sofá, era uma criança de uns 5 anos, mirrada, doente, de olhar perdido e de boca entreaberta como a dos loucos que Jacó vira no hospício. Era um garoto doente da cabeça, viu logo isso no sonho. A mulher, mãe do menino, olhou bem para Jacó e disse com a mesma voz de aviso que o estava perturbando desde a véspera: “Eu não amo este menino.” Disse a frase com tal repugnância que parecia ser a mãe dum bastardo infeliz, ou de um aborto mal-sucedido. Essa era a aparência do menino, um aborto vivo; e o que era pior, renegado pela mãe desde o ventre e agora ela tinha que arrastar aquele fardo pelo mundo afora, mostrando a todos a sua infelicidade genética de mulher e mãe. O menino sofria por ser doente e sabia-se não amado pela mãe.
Jacó acordou logo de sobressalto, assustado com o aviso tido no sonho. A voz era conhecida, mas ele não se lembrava de quem era aquela voz; ainda bem, pois se soubesse quem era aquela mãe desgraçada que pusera um filho no mundo para matá-lo de desamor, ele lhe daria umas boas bordoadas. Jacó foi acordando e sentindo-se ferido por aquela frase reveladora: “Eu não amo este menino.” Aos poucos o ódio foi-se aclarando em seu peito e surgiu uma necessidade urgente de ajudar aquele garoto e aquela mãe que não amava o próprio filho. Mas perguntava-se: “Por que ela não o ama se ela é sua mãe?”. A cada minuto que se passava a cabeça de Jacó ia-se enchendo de dúvidas. Quem seria aquela mulher? Quem era o garoto adoentado feito louco? Por que ela não o amava? Seria mesmo sua mãe? Seria capaz uma mãe não amar seu filho?
No turbilhão mental de suas dúvidas e com o susto do sonho, Jacó não conseguiu mais dormir e pegou logo de sua Bíblia e foi ler os salmos que tanto o apaziguavam. Leu o salmo número 1 e nada Deus lhe disse; segurou a bíblia com as duas mãos e forçou a vista na leitura, pois não sabia ler bem, mas seguiu adiante e leu o salmo número 2, leu-o com muito esforço e chegando perto do final do salmo leu a frase reveladora no versículo 12: “Beijai o filho, para que ele não se ire e pereçais no vosso caminho...”. Iluminou-se-lhe a mente e já sabia o que aquela criança adoentada do seu sonho precisava para ser curada de seu problema e também o que a mãe precisava fazer: precisava amar seu filho, beijá-lo, abraçá-lo, deixar que ele se sentisse amado. Nesses casos de doença da cabeça, depois de Deus e do saber dos médicos, o que melhor cura é o amor, ainda mais o amor de mãe. Era isso, Jacó sabia com certeza.
Quando deu por si, estava novamente com sono, dormindo sentado na beira da cama, abriu os olhos, pôs a bíblia no criado mudo e voltou a dormir o sono de aposentado inválido, até tarde da manhã. Não sonhou mais naquela noite. Descansou de suas vozes e perguntas e acordou como quem acaba de realizar uma tarefa e sente-se satisfeito.
O dia passou sem agonias e os outros dias seguiam-se amenos e calmos como eram os dias de Jacó. Ele não mais ouvia os avisos de vozes que lhe vinham ao ouvido pela nuca, aqueles fiozinhos de conversas ruins. Apenas um aviso havia se incutido na sua cabeça e não o abandonava, um aviso que as vozes haviam marcado como que ferro quente em couro de boi, era o que a mãe dissera do próprio filho no sonho: “Eu não amo este menino.” O aviso estava agora dentro dele, reverberando em sua mente, mas Jacó já sabia o que tinha que fazer, tinha que ajudar aquela mulher a aprender amar seu filho; era o único jeito de o aviso em sua mente cessar de lhe repetir vez após vez o mesmo refrão melancólico que, embora levemente, como um martelo de vidro, também o deprimia.
E os dias seguiam com suas marteladas de vidro dentro da cabeça de Jacó. Assim é um martelo de vidro: não se pode malhar com muita força, senão ele despedaça-se; mas se se malha como quem afaga, ele vai cravando o prego dos avisos nos caminhos mentais até fixar-se bem e profundamente. Um martelo de vidro devia ser apenas uma escultura num museu dadaísta.
Chegou o dia de Jacó ir ao seu médico pegar mais receituários para seus remédios costumeiros. Em lá chegando, um consultório público, pois Jacó era pedreiro pobre e aposentado por invalidez, com salário só pra sobreviver, sentiu uma martelada de vidro dentro do seu cérebro: mais um aviso. Perturbou-se, sabia que algo iria acontecer, mas não podia demonstrar aflição nenhuma, pois ali estavam o médico e os enfermeiros que poderiam levá-lo de novo ao hospício; precisava fingir que era uma pessoa normal e saudável. Assim Jacó fez seu teatro de gente alegre, com sorriso no rosto e olhos compenetrados como um atleta ou gente do comércio, desprendendo sobriedade por todo seu semblante. Jacó parecia mesmo um homem saudável que nunca tivera sido doente, mas é que há marcas que não se apagam com o tempo, são como cicatrizes de uma ferida bem fechada, mas que a qualquer momento podem-se transformar em úlcera aberta à luz e aos olhos de todos; é a cicatriz fechada pelo medo. E de medo mata-se e morre-se, mas Jacó era um bom figurante no teatro da vida e fazia bem seu papel, ainda ali naquele consultório médico do estado cheio de enfermeiros fortes como armários de madeira-de-lei.
Jacó fez bem o seu teatro periódico e recebeu suas receitas médicas e dirigiu-se à farmácia do posto de saúde público para aviá-las. A cada passo que dava uma pequena martelada de vidro malhava em seu cérebro e ele julgava que desta vez não conseguiria sair-se bem dessa situação, estava a ponto de gritar alto, enlouquecer, urrar feito bicho ferido no meio das ruas que cruzava em direção ao posto de saúde. Mas Jacó seguia no seu teatro de gente normal que não era e passo a passo chegou ao posto; lá, entrou na fila à espera de ser atendido pelos farmacêuticos. Já não corria risco de ser preso e levado ao hospício, mas seu maior medo era de que alguém lhe pudesse ler os pensamentos e enfim ficasse sabendo da confusão mental e dos tormentos por que estava passando naquele dia, das marteladas de vidro em seu cérebro de inválido aposentado. Eram 3 da tarde e a fila seguia na frente da farmácia do posto. “Tomara que tenham os remédios, senão terei que comprar fiado na Farmácia do Juca, meu cumpadi.”
Chegou sua vez de ser atendido, havia todos os remédios da sua receita, exceto um, um remédio que acabasse com suas marteladas de vidro intermitentes em sua cabeça, mas este era um mal que só tinha um jeito: encontrar aquela mulher do sonho e ajudar aquela criança não amada por sua mãe.
O farmacêutico empacotou seus remédios e chamou o próximo da fila; Jacó deu meia volta e ia dirigindo-se para a saída do posto quando topou com uma mulher puxando uma criança pela mãozinha, uma criança adoentada e mirrada com um boné cobrindo-lhe o semblante, como se a mãe quisesse escondê-la da vista dos outros por vergonha de ter um filho que tomasse remédios de gente louca. A criança era-lhe uma lástima, um fardo para toda vida a ser arrastado penosamente, sem prazer em vê-lo ser um adulto que a ajudasse na velhice; muito pelo contrário, ela teria que o ajudar em tudo, até o fim da vida. E o pior, no final da vida ela iria pro inferno por não ter amor por aquele filho. A mulher acabava-se de trabalhar dia e noite no serviço e nos afazeres redobrados da casa e o marido nem ligava mais para nenhum dos dois, saia todas as noites e acabara por levar vida alheia aos problemas da mulher e do filho; também não os amava. Eram uma família despedaçada, o filho doente e necessitado de cuidados, a mãe culpava o filho pelo desamor do marido e não amava o filho, apenas o suportava e o pai bebia e saia com outras mulheres, pois dizia que a sua mulher não era mulher de verdade, já que lhe dera um filho louco desde que nascera.
Jacó ouviu a última martelada em seu cérebro ao olhar aquela mulher e sabia que tinha que agir rápido; não era sempre que se podia resolver um problema, nem encontrar pessoas numa cidade tão grande como aquela em que vivia. Estava todo alerta e tomou sua melhor compostura para abordar aquela mãe com seu filho. Chegou à mulher e perguntou-lhe o nome e quem era aquele belo garoto. Travou as primeiras impressões e fez-se simpático, artista de teatro que havia se formado na vida, conseguiu a boa atenção da mulher carente de amigos e afeto.
Jacó abraçou a criança, trazendo-o ao seu peito e o garoto sorriu e alegrou-se muito, pois quase nunca recebia demonstrações de afeto e Jacó o beijou no rosto, como havia lido no salmo, “...beijai o filho...” . Pediu que a mãe do menino lesse aquele salmo e beijasse sempre o seu filho, todo dia, que assim ele iria sarar do problema, era uma questão de amor. Abraçou aquela mulher e disse-lhe que tudo seria resolvido, pois é da natureza das mães amar seus filhos e ela não podia negar seu amor àquele filho. Falou com suas palavras simples de pedreiro aposentado por invalidez, mas falou de modo penetrante como se suas palavras fossem talhadeiras perfurando concreto duro e velho num peito sofrido e num coração empedrado que aquela mãe não resistiu e chorou abraçando aquele homem desconhecido e o garoto abraçou as pernas de ambos ali atados pelo destino. Jacó despediu-se daquela mãe e de seu filho e o beijou mais uma vez com seus lábios de um rosa velho e ressequido, mas puros e sinceros como os lábios de um homem que se sabia louco pelos médicos, mas que nem todos entendiam da mesma forma, agora muito menos aquela mulher e seu filho. Foi-se, sua missão estava completa, fez o que pudera; agora era com eles.
À medida que se afastava, sentia o martelo de vidro ser recolhido para alguma parte desconhecida de sua mente, como se lá dentro houvesse toda uma caixa de ferramentas, uma para cada tipo de aviso ou visão, instrumentos delicados, precisos e com funções definidas e eficazes. Jacó sabia-se um homem de ter visões e vozes de avisos, mas já não sabia se poderia ajudar mais pessoas como aquelas, estava tornando-se um velho e queria aposentar-se dessa profissão ingrata de ser louco de ter avisos, queria sossego no fim de sua vida, um dia, pensava ele, um anjo bom abriria sua cabeça e destruiria o martelo de vidro e todas as demais ferramentas da sua caixa de instrumentos surreais da sua mente e ele iria descansar da vida reclusa num mundo fragmentado.
(BALLA, Cristiano Júnior. Psicotomia:contos. 2010)
O autor, depois de sofrer perdas afetivas inexpugnáveis na década de 90, foi vítima de um acidente de automóvel e sofreu um traumtismo craniano e graves ferimentos na mão direita, o que lhe deixou sequelas neuropsiquiátricas das quais vem se tratando, com sucesso, desde então. Neste livro bruto e sensível ao mesmo tempo, expõe faces da loucura no cotidiano e na vivência interior de seus personagens criados a partir de observações suas e dos que com ele conviveram neste trajeto de fuga das incabíveis prisões da alma humana. |
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7.2.2010 - contos infantis
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Já está pronto para aquisição/venda o e-book do livro de contos infantil
"Contos Expertos Para Crianças Inteligentes", de Cristiano J. Balla.
Entre em contato com o autor, via e-mail: cristianojballa@yahoo.com.br

É uma coletânea infanto-juvenil de sete contos destinados à formação crítico-pedagógica de jovens leitores que já sejam fluentes na língua pátria. Está redigido de acordo com a nova ortografia que começou a vigorar em 2009. A garotada vai curtir. Os contos são:
1- O Bicho das Sete Goiabas;
2 - O Cavaleiro da Lua e a Princesa Lena;
3- Lyca, a aranhinha que queria voar;
4- A Caçadora de Diamantes;
5- A Infância de Deus;
6- Pretinha de Carvão;
7- João Bom e José Ótimo; |
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21.1.2010 - O Jardim De Dentro agora em e-book.
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Agora o livro O Jardim de Dentro - poemas e contos, aclamado pela crítica desde sua publicação em 2007,está disponível em e-book, totalmente revisado de acordo com a nova ortografia e com inclusão de poemas de seu repertório original, que não haviam sido publicados em sua primeira edição, além de capa e ilustrações internas coloridas. Você pode adquirir este e-book com o autor em: cristianojballa@yahoo.com.br
Seguem abaixo um dos poemas e uma narrativa curta deste livro:
O NEFELIBATA
Olhei tanto as estrelas
Que me esqueci dos pirilampos.
Na ânsia romântica de vê-las,
Esqueci o meu amor dos verdes campos
E de como seus cabelos eram um negro manto,
Que acabei por perdê-la.
Busquei veredas ocultas dos astros
Que esqueci os caminhos da rua
E acabei perdendo seu rastro.
Fiquei olhando solitário a Lua
E me esqueci da sua pele branca, nua,
Qual escultura macia no alabastro.
Quis saber das distantes nebulosas do universo
Que desaprendi do abraço a pequena distância
E a perdi neste infeliz reverso,
E, dos nossos beijos cheios de infância,
Ficou apenas uma suave fragrância
Nas tintas de nuvens dos meus versos.
(BALLA, Cristiano Júnior. O Jardim de Dentro)
O Monge e o Pardal
(Para a mãe Zélia)
O monge e a pedra sobre a qual ele estava sentado a meditar formavam uma só paisagem ímpar e serena. Ele havia acabado de fazer sua refeição matinal e havia colocado seu hashi, sua cumbuca com pequenas migalhas de comida e um copo de argila com água pelo meio próximos à pedra em que se sentara.
Estava ali incólume, integrando-se à natureza. Ora fechava os olhos para contemplar a beleza do seu mundo interior, ora os abria para maravilhar-se com o mundo bucólico que o rodeava. Queria ser amigo dos animais, das plantas, das rochas, pois em tudo estava a essência do criador supremo.
Em algumas horas de meditação, atingiu o máximo de integração à natureza; ele e a pedra não eram apenas uma paisagem alheia, eram parte de um todo. O monge sentia o vento suave nas folhas das árvores, os insetos a voar e pousar nas plantas, os animaizinhos a correr e se esconder por perto, tudo isso, mesmo de olhos fechados.
De repente, um pardal que estava com muita fome e sede viu ao lado do monge sua possível refeição e, ave arisca, pousou sem fazer estrépito a uns 3 palmos perto das migalhas e do copo d’água. Assim que o pardal começou a se aproximar da refeição, o monge percebeu o que se passava e lentamente foi abrindo suas pálpebras e apenas girou os olhos na direção do pardal, sem fazer movimento com a cabeça, pois conhecia a arisquez da avezinha.
O pardal dava uns passinhos tímidos e, a cada passo, olhava para todas as direções, fez assim até ficar a poucos centímetros da sua refeição, mas quando ia comer as migalhas e beber a água, olhou para os lados e percebeu que o monge o observava com alegria no olhar – pois o monge poderia alimentar aquele pardal e talvez ela se tornasse sua amiga. Mas não deu outra: o pardal voou com medo, mesmo que muito perto de sua refeição.
O monge logo ficou triste, mas percebeu o seu erro e a arisquez da avezinha e tratou de afastar um pouco mais de si o prato com as migalhas e o copo com água e voltou a meditar.
Após alguns minutos, o pardal pousou perto de sua refeição e começou a dar passinhos, olhando em redor. O monge novamente abriu suas pálpebras lentamente e apenas girou os olhos em direção da avezinha arisca. O pardal aproximava-se uns passinhos e olhava em redor - talvez na dúvida de que não valesse arriscar sua vida por uma refeição - e novamente percebeu que o monge o observava sentado na pedra ao lado e a avezinha voou arisca.
O monge ressentiu-se e pensou: “Que carma o meu!” “Só quero ajudá-la”. E voltou a meditar sentado na pedra. Após mais alguns minutos o pardal voltou a pousar perto da refeição e desta vez o monge não abriu seus olhos, apenas sentia a avezinha indo passo a passo até que ela beliscou migalhas e bebeu um pouco d’água, matando sua sede e sua fome. E ela voou satisfeita. O monge não havia aberto os olhos, apenas observou com os olhos da sua mente e sentira cada movimento do pardal.
Depois que o pardal voou saciado, o monge abriu os olhos e pensou, concluindo sua meditação: “O que dá o teu coração, não vejam os teus olhos”.
(BALLA, Cristiano Júnior. O Jardim de Dentro - poemas e narrativas curtas.) |
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17.1.2010 - livros novos em e-book
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Este é um novo livro de poemas em formato eletrônico(e-book) disponível somente com o autor pelo seu e-mail: cristianojballa@yahoo.com.br Confira,vale a pena. Neste livro o escritor e poeta mergulha na alma humana, dissecando-a com a destreza de um cirurgião e a precisão de quem a conhece muito bem.
O soneto abaixo pertence ao livro,em sua parte "Facetas da Alma":
IV – O Mergulho
Ergo-me na ponta do trampolim,
Vejo uma piscina de águas sem fundo,
Salto de olhos abertos, me afundo:
Dei um mergulho pra dentro de mim!
Imerso na imensidão sem fim,
Prendo o ar nos pulmões e me aprofundo,
Cada vez mais, no líquido oriundo
Da mente, este território chim.
Pressinto que o fôlego me abandona,
Mesmo assim, vejo imagens surreais,
Lembranças submersas no inconsciente
E a alma, num conflito sempre urgente,
Pelejando com os conceitos morais;
Preciso respirar, voltar à tona.
(BALLA, Cristiano Júnior. Verbotomia)
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Este blog se destina a hospedar e divulgar obras literárias de Cristiano Júnior Balla.
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